Por Flávia Ribeiro, Colunista de Plurale (*)

Nesta terça-feira, dia 17 de março, o The Wall Street Journal trouxe um artigo que resume bem o momento anti-ESG: “ESG May Be Eating Away at Your Investments”. O texto me fez refletir sobre a financeirização da sustentabilidade e os motivos do afrouxamento do mercado para o olhar sobre a pauta socioambiental. Quando observamos o retrocesso no contexto internacional da pauta ESG, não estamos falando que o mercado está rejeitando a sustentabilidade. Na verdade, os acionistas estão questionando a sustentabilidade sem evidência.
Os autores Phil Gramm e Jeb Hensarling apontam que o investimento ESG frequentemente prioriza pautas ideológicas em detrimento do retorno financeiro dos investidores. O artigo sustenta que os gestores de ativos têm negligenciado seu dever fiduciário (lucro) ao focar em metas sociais e ambientais sem o consentimento explícito dos clientes. Na prática, eles estão falando dos fundos de investimento ESG que não performaram bem, sendo agravado por uma falta de transparência e métricas inconsistentes no mercado.
O que temos visto nos últimos dois anos é que o entusiasmo por adotar práticas sustentáveis está diminuindo à medida que novos regulamentos buscam proteger o capital privado de interesses não pecuniários. Nos EUA, defende-se uma fiscalização governamental mais rigorosa para garantir que os consultores financeiros priorizem exclusivamente os interesses dos acionistas. Isso gera riscos para o progresso das ações socioambientais, que permanecem na periferia e não no centro dos negócios.
O que o The Wall Street Journal traz é uma crítica direta: as agendas não-financeiras estariam prejudicando a geração de valor das empresas. Na minha opinião, estamos diante de uma fragilidade de monitorar o ROI social e ambiental, além de uma avaliação mais criteriosa de impacto real. Não cabe aqui entrar no mérito político por trás desses argumentos. É fato que os EUA enfrentam um cenário de desmonte de agendas que deveriam ser prioritárias e isso impacta a governança e a tomada de decisões globalmente. Por isso, convido o leitor à reflexão dos argumentos:
1. Intenção não é mais suficiente. Fundos ESG prometeram impacto ambiental e social mensurável. Em muitos casos, não entregaram. A ausência de métricas verificáveis virou passivo reputacional e financeiro.
2. A promessa de "mesmo risco, mesmo retorno" está sendo questionada. Taxas mais altas, critérios não financeiros mal calibrados e performance baixa abriram espaço para o questionamento: esse modelo funciona?
3. O dever fiduciário ganhou nova leitura. A interpretação que avança, inclusive com força regulatória nos EUA é clara: gestores devem priorizar retorno financeiro. ESG só entra quando for materialmente relevante para o resultado ou quando houver mandato explícito de impacto. Nessa análise, como ficam todos os temas materiais não financeiros? Eles podem ser negligenciados? O quanto clientes e consumidores aprovam isso?
4. O apoio institucional está recuando. Grandes gestores de ativos estão reduzindo o suporte a resoluções ESG. Isso não é abandono, é revisão. No caso, entendo que a revisão é válida, se for bem conduzida, mas considerando também os dados socioambientais como estratégicos.
5. Greenwashing virou risco sistêmico. Ratings questionáveis, consultorias que influenciam e se beneficiam do mesmo sistema, narrativas sem lastro. O mercado está precificando isso e exigindo maturidade.
O que está acontecendo, de fato, é a financeirização da sustentabilidade. Porque ESG que não impacta, não se sustenta. Na minha visão, é preocupante ver os movimentos de desinvestimento em agendas de inclusão, diversidade e outros retrocessos como justificáveis, pois não conseguem tangibilizar a geração de valor da agenda não-financeira.
Por que os argumentos anti-ESG ganharam tanta força?
O fato é que ESG virou produto financeiro antes de tornar-se prática gerencial nas empresas. A indústria de fundos cresceu rápido demais sem lastro de evidência, e o mercado está cobrando essa conta. Há um combustível político real, não apenas retórico. Nos EUA, a administração de Donald Trump criou um ambiente em que questionar ESG virou bandeira ideológica de um lado e risco reputacional do outro. A reação se intensificou com retrocesso federal em medidas climáticas e de sustentabilidade, colisão com iniciativas estaduais pró e anti-ESG, e proliferação de litígios de ações de greenwashing a investigações estaduais ampliando a incerteza sobre disclosure, publicidade e práticas fiduciárias.
No entanto, os dados brasileiros sinalizam uma história de mudança. O Radar de Tendências 2026 do CEBDS mostrou que 72% das empresas já integraram sustentabilidade à estratégia de negócios contra apenas 26% dois anos antes. As emissões de títulos sustentáveis brasileiros saltaram de US$ 2,06 bilhões para US$ 6,55 bilhões entre 2022 e 2024, crescimento de 218%. Entre empresas em estágio avançado na agenda ambiental, 87% reportam impacto direto em reputação e marca, e 82% ampliaram acesso a novos mercados. Não é altruísmo. Há uma lógica: a sustentabilidade virou variável de risco, retorno e custo de capital.
A boa notícia é existem caminhos para conter o retrocesso. Na prática, ganham holofotes: (1) risco climático deixa de ser tema de relatório e passa a ser variável de precificação de ativos; (2) governança deixa de ser compliance e passa a ser proteção de valor no longo prazo; (3) cadeia de fornecedores deixa de ser auditoria social e passa a ser gestão de risco sistêmico (4) impacto precisa ser mensurado, auditável e comparável ou não existe. Portanto, não teríamos evidências de que o movimento anti-ESG vence a narrativa, mas está perdendo a guerra estrutural? Porque os riscos físicos do clima, as exigências regulatórias na Europa e Ásia, e a pressão de cadeias globais de valor não recuaram.
O dinheiro está saindo dos rótulos ESG, mas a agenda está viva. É bem verdade que enfraqueceu muito, mas aposto que lideranças e Conselhos de Administração sérios irão perseguir como a sustentabilidade está integrada à lógica de geração e proteção de valor para o acionista. A resposta clara separa as empresas que usam ESG como narrativa das que usam ESG como estratégia.
(*) Flávia Ribeiro é fundadora da Rizoma Inteligência ESG e Colunista Plurale.













