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Supply Chain, compras e o ESG: elos inseparáveis da cadeia de valor

Por Luiz Antônio Gaulia, Colunista de Plurale

A área de Supply Chain (Cadeia de Suprimentos) e a área de Compras (Procurement) possuem uma relação inseparável com a agenda ESG[1]. Podemos afirmar que pela sua abrangência de relações comerciais, essas funções são como a "linha de frente" da ESG nas empresas porque uma grande parte do impacto ambiental, social e de governança de uma organização acontece fora de suas instalações operacionais.

Os elos de uma cadeia de valor sustentável são testados diariamente no comportamento dos parceiros terceirizados, nos fornecedores locais, regionais e globais, na produção de matérias-primas e nos modais de transporte e logística.

Trata-se de uma linha de frente extremamente sensível a crises de reputação e abalos na confiança muitas vezes distantes geograficamente, mas de forte impacto local.

Supply Chain e Compras o que podemos destacar?

No universo de Supply Chain e Compras vale ressaltar rapidamente algumas questões como:

  • Emissões de carbono: a maior parte das emissões de gases de efeito estufa de muitas empresas vem da cadeia de suprimentos e das operações logísticas;
  • Riscos e conformidade regulatória: regulamentações globais como CSRD[2] (Europa), CSDDD[3] (Due Diligence em sustentabilidade), EUDR[4] (desmatamento) e leis semelhantes no Brasil e em vários países exigem transparência, due diligence[5] e relatórios sobre impactos na cadeia de suprimentos. O “Não compliance” pode gerar multas, perda de acesso a mercados, cancelamento de contratos e danos negativos à reputação.
  • Oportunidades de valor compartilhado: imagine tornar-se referência em ESG no setor de Supply Chain? Além de reduzir potenciais riscos negativos ao estar em conformidade com leis e regulações, uma abordagem ESG integrada e realmente comprometida com a transparência de seus processos e em alinhamento coerente aos discursos corporativos pode gerar grande retorno em imagem e reputação, bem como a redução de custos na hora de fechar negócios (maior confiança nos serviços prestados) e uma maior eficiência de recursos na chamada “economia circular”.[6]

Também podemos destacar como oportunidades ESG na área de Supply Chain e Compras o acesso a financiamentos com taxas de juros e cálculos de risco menores, a atração de clientes premium globais e maior resiliência organizacional diante disrupções, multas e crises.

Mas como cada pilar do ESG se relaciona com Supply Chain e Compras?

Ao priorizar fornecedores comprometidos com uma agenda mais sustentável e de menor dano ao meio ambiente em suas operações, bem como comprometidas com questões sociais (como garantir que seus fornecedores não tenham trabalho análogo à escravidão nas suas atividades) e também questões de governança (participações societárias com grupos ligados a lavagem de dinheiro do crime organizado). Dessa forma, uma espécie de diligência prévia e preventiva sobre as práticas ESG pode e deve ser considerado como modelo de fechamento de contratos.

Diante disso, ressalto questões impactantes em ESG, a saber:

1. Environmental (Ambiental):

- Redução de emissões de gases poluentes no transporte, no uso embalagens e produção de fornecedores.

- Uso responsável de recursos (água, energia, matérias-primas etc.).

- Economia circular: reutilização, reparo, reciclagem de materiais e redução de produção de resíduos capazes de poluir o maio ambiente.

- Combate ao desmatamento e impacto negativo na biodiversidade (rastreabilidade da origem das commodities como soja, cacau, madeira etc.).

2. Social (Social):

- Direitos Humanos: trabalho decente e em condições laborais em toda a cadeia (evitar trabalho infantil, forçado ou exploração).

- Diversidade, inclusão e equidade: sourcing de fornecedores diversos ou liderados por minorias, povos originários e respeito a questões culturais nacionais;

- Impacto nas comunidades locais onde os fornecedores operam (saúde, educação, direitos indígenas etc.).

- Compras como um "guardião ESG" ao fazer due diligence social e buscar padrões éticos aceitáveis dos fornecedores e fornecedores de seus fornecedores.

3. Governance (Governança):

- Transparência e rastreabilidade da cadeia de suprimentos;

- Anticorrupção, honestidade nos negócios e conformidade com leis (ex.: ISO 37001[7] anti-suborno);

- Gestão de ameaças em múltiplos níveis de fornecedores; Integração de critérios ESG em contratos, avaliações de fornecedores.

Supply Chain e Compras como “habilitadores estratégicos”.

A área de Compras (Procurement) é como um "portão de entrada" da cadeia de valor de uma empresa. As equipes de compras incorporam critérios ESG nas especificações de produtos, avaliações de fornecedores através de relatórios de sustentabilidade publicados, bem como histórico negativo nas mídias e na imprensa, nas negociações de contratos e até nos processos de licitação.

Supply Chain vai além das Compras e abrange planejamento, logística, manufatura terceirizada, distribuição e a logística reversa, dependendo de cada setor da economia – cada um possui características mais ou menos ligadas a diferentes frentes ESG.

Me arrisco a prever que muitas empresas começarão a migrar a responsabilidade pela ESG da área de Sustentabilidade bem como a responsabilidade social corporativa para Supply Chain e Procurement, pois é ali onde a execução realmente acontece e diferentes ameaças (ou oportunidades) podem se tornar reais.

Em resumo, creio que Supply Chain e Compras não são apenas "executores" da agenda ESG, recebedores de diretrizes, mas sim, áreas vitais atuando como “habilitadoras estratégicas”. Um trabalho de maior relevância e inteligência. Empresas que tratam ESG apenas como compliance perdem a oportunidade de transformar sua cadeia de suprimentos em uma fonte de valor sustentável e escudo reputacional.

No Brasil e também globalmente, com o aumento de regulamentações, leis e fiscalizações[8] governamentais de múltiplos órgãos bem como a pressão de investidores, clientes e outros stakeholders influentes, vejo a integração de ESG com Supply Chain e Compras como uma tendência a se aprofundar nos próximos anos.


[1] O termo ESG surgiu formalmente em 2004, através da publicação do relatório Who Cares Wins de iniciativa do Pacto Global da ONU em parceria com o Banco Mundial, a pedido do ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan. A sigla representa os pilares Ambiental, Social e Governança (Environmental, Social and Governance).

[2] A Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD, na sigla em inglês) é uma política que exige que todas as organizações com grandes volumes de operações ou receitas geradas na União Europeia divulguem informações ambientais, sociais e de governança (ESG).

[3] A CSDDD é a Diretiva de Diligência Prévia em Sustentabilidade Corporativa. A lei da União Europeia (aprovada em 2024) que obriga grandes empresas a identificar, prevenir e mitigar impactos negativos nos direitos humanos e no meio ambiente em suas próprias operações e cadeias de valor globais.

[4] A European Union Deforestation Regulation – EUDR é a norma da União Europeia que proíbe a importação de produtos ligados ao desmatamento, legal ou ilegal e exige rastreabilidade total da origem do produto (geolocalização)

[5] A chamada diligência prévia é um processo investigativo detalhado, realizado por empresas ou investidores antes de fechar um negócio, para avaliar riscos financeiros, jurídicos e operacionais.

[6] A economia circular é um modelo de produção e consumo que visa eliminar o desperdício, priorizar a reutilização, o reparo e a reciclagem de materiais existentes pelo maior tempo possível. Ao contrário da economia linear.

[7] Para conhecer mais sobre a Norma ISSO 37001 acesse: https://www.iso.org/standard/37001

[8] Uma reportagem do Jornal Valor de novembro de 2025 destacava que: “O descumprimento de normas ambientais e metas de redução de emissões expõe empresas a multas milionárias, risco de fechamento de fábricas e até prisão de executivos”. Em: https://valor.globo.com/patrocinado/dino/noticia/2025/11/14/praticas-sustentaveis-deixam-de-ser-opcao-e-multas-aumentam-1.ghtml

(*) Luiz Antônio Gaulia é Colunista de Plurale. Jornalista. Mestre em Comunicação Social pela PUC Rio. Especialista em Comunicação Corporativa pela University of Syracuse NY. Especialista em Sustentabilidade e Economia Circular pela University of Colorado Boulder. Pós-graduado em Marketing pela Universidade Candido Mendes. Trabalhou em projetos de comunicação para companhias como CSN - Cia. Siderúrgica Nacional, O Boticário, Alunorte - Hydro, VALE, Petrobras, Estácio, NORSUL, NTS - Nova Transportadora do Sudeste, Statkraft Energia, Ajinomoto, DM10 Seguros e DASA outras. Atuou também em agências e consultorias de branding, sustentabilidade, publicidade, marketing, comunicação e PR. Professor do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás e do IBMEC.







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