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Entre o barulho do mundo e o silêncio das organizações

POR GLAUCIMAR PETICOV, COLUNISTA PLURALE (*)

Vivemos um tempo em que o mundo parece falar alto o tempo todo.
Opiniões se impõem, lados se formam, verdades são defendidas com intensidade crescente.

A polarização, antes mais evidente no campo político e social, hoje atravessa relações, influencia decisões e chega, de forma silenciosa, ao ambiente corporativo.

Ao mesmo tempo em que o barulho externo se intensifica, um movimento oposto ganha força dentro das organizações: as pessoas estão falando menos, e não necessariamente porque concordam mais.

Onde não existe segurança para expressar pontos de vista, o silêncio se torna estratégia.
Não por falta de repertório, mas por avaliação de risco.

E é nesse ponto que emerge um fenômeno que merece atenção: a exaustão emocional silenciosa.

Não se trata apenas de sobrecarga de trabalho.
Trata-se do esforço contínuo de adaptação, contenção e leitura constante do ambiente para evitar exposições desnecessárias.

Existe um desgaste que não aparece nos indicadores tradicionais.
Ele não está nos relatórios, nem nas métricas de desempenho.
Ele se manifesta naquilo que deixa de ser dito.

Ideias que não são compartilhadas.
Divergências que não são exploradas.
Perguntas que deixam de ser feitas.

Organizações podem, assim, tornar-se mais estruturadas por fora, e progressivamente mais silenciosas por dentro.

A ausência de conflito aparente pode ser interpretada como alinhamento.
Mas, em muitos casos, revela algo mais sensível: a ausência de confiança.

Ambientes saudáveis não são aqueles onde não há divergência.
São aqueles onde a divergência pode existir sem que isso represente ruptura.

A incapacidade de sustentar conversas difíceis tem um custo elevado, ainda que invisível no curto prazo.
Ela compromete a qualidade das decisões, limita a inovação e fragiliza a construção coletiva.

Em um contexto global marcado por tensões e polarizações, o papel das organizações se amplia.
Mais do que entregar resultados, torna-se essencial criar condições para que as pessoas possam contribuir com autenticidade e responsabilidade.

Isso exige mais do que diretrizes ou discursos.
Exige prática consistente de escuta, maturidade para lidar com diferenças e liderança capaz de sustentar complexidade sem simplificações.

Porque, no limite, o maior risco não está no conflito.
Está na ausência de espaços onde ele possa ser elaborado.

E talvez um dos desafios mais relevantes deste tempo seja este: reconstruir a capacidade de dialogar, mesmo quando não há consenso.

Mais do que alinhar narrativas, será necessário ampliar a escuta.
Mais do que evitar tensões, será necessário qualificá-las.

Porque o que adoece as organizações não é apenas o conflito exposto.
É, sobretudo, o silêncio que se instala quando as pessoas deixam de se sentir seguras para participar.

(*) GLAUCIMAR PETICOV é Colunista Plurale, colaborando com artigos sobre ESG. É fundadora e CEO da Peti Desenvolvimento Humano. Executiva e conselheira, construiu sólida trajetória no setor financeiro, chegando a posições C-level no Bradesco.É conselheira do Instituto Vasselo Goldoni (IVG), do Instituto Brasil Digital (IBD) e da FIA – Fundação Instituto de Administração. Integra o Grupo Conselheiras e é colunista da revista Plurale.Dedica-se a ampliar a consciência organizacional sobre liderança, cultura e riscos humanos, examinando como emoções, silêncio organizacional e a qualidade das relações influenciam decisões, desempenho e a maturidade institucional necessária para sustentar o futuro.







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