Às vésperas da primeira conferência internacional “Transitioning Away from Fossil Fuels”, na Colômbia, registro a tentativa de minimizar minha pegada de carbono em viagem recente na Europa
Texto e fotos por Betina Dowsley, Especial para Plurale
Reduzir, reutilizar, reciclar e compostar são ações já incorporadas ao dia a dia de todo cidadão, pelo menos por aqueles que se preocupam com o meio ambiente e o futuro – cada vez mais presente – do planeta. Quem está por aqui há pelo menos 50 anos, já está cansado de ouvir falar em crise do petróleo, alta de preços provocada por guerras, boicotes e escassez. Sem falar na poluição gerada pelo uso dos combustíveis dele derivados.
Em 2026, está mais do que na hora de encararmos a tão falada transição energética. Nas ruas dos grandes centros urbanos, já é possível perceber a popularização dos carros elétricos, disponíveis para locação e em serviços de transporte por aplicativos. Como no Brasil os veículos elétricos ainda estão com valores acima dos modelos convencionais, uma viagem para a Europa parecia uma boa oportunidade para fazer um test-drive, especialmente em países como França e Holanda, que contam com políticas públicas sustentáveis avançadas.
Apesar do receio devido às dificuldades enfrentadas por amigos na Califórnia, encarei a proposta de fazer a experiência por 15 dias. Afinal, as distâncias que devíamos percorrer não eram grandes: Paris, Lille, Papendrecht, Enschede, com retorno passando por Apeldoorn, Utrecht e Lille novamente antes de devolvermos o carro no aeroporto Charles De Gaulle – mais ou menos a distância de uma ida e volta do Rio de Janeiro (RJ) para Vitória (ES), só que em estradas muito melhores. Escolhemos um modelo da francesa Renault, pela confiança na marca e pelas avaliações de desempenho. De nada valeu nosso cuidado. Uma prática comum das locadoras de automóveis é entregar um veículo da “mesma categoria”. O nosso foi um Opel Frontera. À primeira vista, pareceu realmente similar, mas nunca saberemos se teríamos tido a mesma experiência com um Duster.
Pé na estrada e som na caixa
Recebemos o carro com cerca de 80% de carga. A atendente da locadora informou que o rendimento dele com 100% de bateria seria de 300km. Como o Google Maps indicava cerca de 200km entre o aeroporto Paris Charles De Gaulle e Lille, nossa primeira parada, partimos satisfeitos. O carro parecia ótimo, a luz do final da tarde estava linda... Som na caixa!
Conforme a noite caía e o frio aumentava, veio a tensão. O painel do carro indicava a autonomia da bateria em quilômetros e, mantendo-se tais condições, não seria suficiente para chegarmos ao destino. Devido à nossa falta de experiência com carro elétrico, não nos sentíamos seguros para continuar rodando. Seria preciso parar para recarregar antes de chegar em Lille e nos demos conta que não sabíamos como fazer isso. Identificamos um posto de abastecimento na autoestrada e entramos. A área de recarga elétrica tinha várias baias, apenas duas delas estavam com carros conectados. Não havia nenhum atendente para explicar o funcionamento, apenas instruções escritas para usuários minimamente habituados ao procedimento. A duras penas e com a ajuda de um outro cliente, conseguimos entender o básico. Resultado: perdemos uma hora para desenrolar o sistema e outra hora para recarregar.
Na volta para a estrada, fomos percebendo que a bateria diminuía à proporção não só da distância, mas também quando colocávamos o celular para carregar, ligávamos o aquecimento e até o limpador de para-brisa... Sim, era noite, fazia frio e chovia! Até o farol consome, né?! Chegamos à Lille duas horas depois do que havíamos previsto e com quase uma hora de atraso para um jantar pré-agendado na cidade.
No dia seguinte, ficamos surpresos ao constatar que a mais importante metrópole multicultural do norte da França sofre com vandalismo. O mapa de pontos públicos de recarga de bateria para carros elétricos na área urbana não informa quais deles estão realmente funcionando. Descobrimos isso da pior maneira: rodando e encontrando cabos de energia cortados mesmo no estacionamento de grandes redes de supermercado. Era sexta-feira, a parada seguinte era Papendrecht, na Holanda, onde tínhamos um outro jantar marcado com outro amigo. Um trecho de 220km que, em condições normais, levaria menos de duas horas e meia para ser percorrido.
Mais uma vez, a noite caiu rapidamente, assim como o nível da bateria do Frontera. Saímos da autoestrada logo depois de cruzarmos a Bélgica em busca de um posto de recarga. Péssima ideia. Nas cidades pequenas da região, os moradores recarregam seus automóveis em frente de casa. Os pontos de recarga públicos são pouquíssimos e é necessário ter um cartão de fidelidade para pagar, com o agravante de serem empresas diferentes em cada um desses locais de recarga. Com tudo escrito em holandês (nem mesmo os apps de tradução ajudavam) e depois de várias tentativas, conseguimos entender o funcionamento graças a um morador muito gentil que se dispôs a passar seu cartão na máquina para liberar o início da recarga e voltar quase uma hora depois (!) para liberar o cabo de energia e podermos pegar a estrada novamente. Apesar de nossa insistência, ele não quis que nós restituíssemos o valor debitado de sua conta, insistindo para que seguíssemos a viagem em segurança. O máximo que aceitou foram chocolates para suas filhas, que estavam aguardando pacientemente no carro. Quanta empatia!
Depois de dois dias de perrengue, deixamos o veículo estacionado por mais dois dias, aproveitando para visitar Dordrecht e Roterdam em barco-ônibus, além de Haia, de carona com nosso amigo holandês. Nossa parada final no percurso de ida era Enschede, cidade quase na fronteira da Alemanha. Saímos de Papendrecht por volta das 17h, com a bateria toda carregada e com a expectativa de chegar duas horas depois. Porém, a tal autonomia de 300km é pura utopia. Mais uma vez tivemos que fazer uma pausa para recarregar a bateria e, mais uma vez, chegamos atrasados pro jantar.
Desempenho na estrada X na cidade
Na pequena cidade, com distâncias pequenas e pouco tráfego, o carro elétrico se mostrou bastante eficiente. Em uma semana, só precisamos recarregá-lo uma vez, mesmo usando-o todos os dias, com aquecimento ligado. Percebemos que bastava soltar o acelerador para o ponteiro de consumo da bateria do carro começar a subir. Andando à baixa velocidade o carro rende bem. Acompanhando o painel de controle do carro, percebemos que as freadas funcionam como recarga!
Uma semana depois era hora de encarar a volta. Adoro viajar de carro, mas confesso que desta vez não estava nem um pouco animada. Ciente da realidade de rodar uma hora e ficar parado uma hora para recarregar, retracei os planos e achei um ótimo lugar para a primeira parada: Kröller-Müller Museum, em Apeldoorn. O estabelecimento fica dentro de um parque maravilhoso e abriga o segundo maior acervo de obras de Van Gogh no mundo! Ponto pro Opel Frontera! De lá, seguimos para conhecer Utrecht. Não sem antes recarregar a bateria para garantir mais uma horinha de estrada.
Nossa ideia inicial era fazer uma parada em Antuérpia, na Bélgica, mas a disposição já não era a mesma de quando planejamos a viagem. Nossa vontade era devolver o carro o mais breve possível e acabamos seguindo direto para pernoitar em Lille novamente – consumindo quase toda a bateria – e, no dia seguinte, devolver o “brinquedo” à locadora.
Acelerar investimentos para melhorar a experiência
Extremamente necessária, a transição energética ainda não é realidade nem aqui, no Brasil, e nem na Europa. Talvez na China! Para quem, como eu, gosta de viajar de carro, é triste constatar que alugar um automóvel elétrico para este fim AINDA não é a melhor opção. O baixo rendimento da bateria em alta velocidade, agregado ao consumo de energia para os itens de segurança e os pequenos confortos aos quais já estamos habituados, além da imposição de cartões de fidelidade para recarga da bateria nos postos de todos os portes nas estradas ou nas cidades, tornam a experiência desagradável, cansativa e, em alguns momentos, tensa.
De volta ao Rio, que alegria reencontrar nosso bom e velho Tucson, com cinco marchas manuais, sem tecnologias de ponta. Um “carro raiz” que, ao longo de 17 anos e 160 mil km rodados, foi responsável por apenas um contratempo, que atrasou em algumas horas uma de nossas muitas viagens por aqui. Fiquei balançada, imaginando como teria sido rodar esse trecho – que poderia ser feito em seis horas de ida e outras seis de volta – com ele.
Apesar de todos as dificuldades para carregar a bateria e esperar em torno de 1h30 para isso a cada vez, valeu pela experiência e pela economia (o litro de gasolina nesses lugares custa em torno de 1,3 euros por litro!). Recomendo a quem quiser se aventurar em viajar de carro elétrico que se informe primeiro sobre a autonomia do modelo, tempo e postos de recarga nos lugares por onde for circular – coisa que não fizemos! Há décadas, os combustíveis fósseis são responsáveis por guerras e crises econômicas. A transição energética é urgente, mas a infraestrutura para garantir uma boa experiência também. Uma coisa é certa: quanto mais gente adotar os veículos elétricos, mais rápido eles deixarão de ser considerados “carros Nutella”.









