Lançado o Elite Quality Report 2026, estudo global liderado pela Universidade de St. Gallen mapeia o potencial de desenvolvimento humano e sustentabilidade macroeconômica. Brasil salta 18 posições, mas enfrenta profunda assimetria estrutural entre o poder de suas elites e o valor entregue à sociedade civil.
Por Fernando Thompson/ Especial para Plurale
De Lisboa/ Portugal

O termo "elite" costuma carregar enorme controvérsia nas discussões públicas, frequentemente associado a privilégios intransigentes. No entanto, uma inovadora abordagem metodológica desenvolvida pela prestigiada Universidade de St. Gallen, na Suíça, em parceria com a Foundation for Value Creation, propõe lançar um olhar científico e prismático sobre esses grupos coordenados. O recém-lançado Elite Quality Report 2026 (EQx2026): The Sustainable Value Creation of Nations avalia 151 países sob uma ótica revolucionária de sustentabilidade em nível macro: afinal, os modelos de negócios das elites nacionais expandem a torta econômica para toda a sociedade ou focam apenas em abocanhar um pedaço maior dela?
Em sua sétima edição anual, o índice avalia o potencial de desenvolvimento humano e econômico de longo prazo por meio de 148 indicadores estruturados em 12 pilares conceituais. A tese central dos autores, os economistas Tomas Casas-Klett e Guido Cozzi, é rigorosa: sistemas de elites de alta qualidade são sustentáveis porque operam com base na Criação de Valor (Value Creation), gerando mais bem-estar para a coletividade do que retêm para si. Por outro lado, elites de baixa qualidade aumentam o risco sistêmico ao adotar modelos rentistas de Extração de Valor (Value Extraction), baseados em transferências unilaterais de riqueza dos produtores para seus próprios bolsos.
A parceria entre a Universidade de St. Gallen (HSG) e o Elite Quality Report 2026 (EQx2026) confere a este estudo uma das mais altas chancelas de credibilidade, rigor e prestígio no cenário geopolítico e económico global. Por um lado, a HSG destaca-se como uma das escolas de negócios mais seletas e influentes da Europa, detentora da raríssima "Tríplice Coroa" de acreditações internacionais e amplamente reconhecida pela sua excelência académica e formação de lideranças de topo. Por outro, o EQx2026 consolida-se como um índice de economia política de vanguarda que traduz de forma puramente científica e matemática — através de quase 150 indicadores de fontes oficiais como o Banco Mundial e o FMI — o real impacto das lideranças no desenvolvimento humano e na sustentabilidade macroeconómica. Juntos, a solidez institucional da prestigiada universidade suíça e a inovação metodológica do relatório transformam este mapeamento numa ferramenta analítica de altíssima respeitabilidade, auditada por académicos globais e indispensável para governos, investidores e defensores da governação corporativa moderna.
A Radiografia Estrutural do Brasil: Recuperação e Paradoxo
Para o Brasil, o relatório traz uma notícia encorajadora à primeira vista: o país foi o destaque de recuperação entre as principais economias emergentes globais, saltando 18 posições no ranking geral para ocupar o 54º lugar mundial, com uma pontuação agregada de 51,2. Esse avanço expressivo sinaliza um fortalecimento institucional relevante em relação aos anos anteriores e coloca o país no pelotão superior das nações emergentes em termos de reconfiguração de incentivos.
Contudo, ao dissecar o arcabouço metodológico do relatório, a reportagem de Plurale identificou um profundo paradoxo estrutural no ecossistema de liderança brasileiro. O índice divide as notas dos países em dois subíndices essenciais: o Subíndice de Poder (peso de 1/3, que atua como previsor de extração potencial futura) e o Subíndice de Valor (peso de 2/3, que mede as evidências empíricas de criação ou extração real).
É nesse ponto que a assimetria nacional se revela: o Brasil pontua substancialmente melhor no Subíndice de Poder, onde ocupa a 44ª posição global (nota 53,3). No entanto, o país despenca para a 70ª posição no Subíndice de Valor (nota 50,1). O que isso significa na prática? Segundo a teoria do desenvolvimento fundamentada no relatório, O sistema de elites brasileiro é altamente centralizado, poderoso e coordenado na determinação das regras do jogo político e corporativo, mas ainda exibe severas limitações para converter esse imenso poder político-econômico em valor tangível, sustentável e inclusivo para o conjunto da sociedade civil.
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O Olhar de Sustentabilidade Macro da Plurale |
Luzes e Sombras nos Indicadores Sociais e Tecnológicos
A análise detalhada das famílias de indicadores traz à tona áreas em que o Brasil desponta como referência internacional, contrapostas a setores de estagnação. O maior orgulho nacional no relatório de 2026 reside no Índice de Acessibilidade à Habitação (Housing Affordability Index). Nesse indicador crítico de bem-estar social, o Brasil conquistou a 6ª posição mundial (nota 89,0), superando economias avançadas e garantindo que o direito básico à moradia permaneça significativamente acessível em comparação com a renda média da população — um pilar vital de inclusão e estabilidade social.
No front da inovação tecnológica de ponta, o país também se posiciona de forma competitiva. Na Família de Indicadores de Inteligência Artificial (IA), o Brasil assegura a 27ª posição global (nota 54,9). Embora distante dos titãs mundiais — Estados Unidos (1º) e China (2º) —, o patamar intermediário alto demonstra que as lideranças acadêmicas e corporativas brasileiras estão engajadas ativamente na corrida digital que redesenhará os fluxos de valor globais na próxima década.
Por outro lado, o calcanhar de Aquiles do país permanece na Família de Indicadores de Diversidade e Inclusão (D&I). O Brasil ocupa uma modesta e preocupante 63ª posição (nota 56,3). Barreiras invisíveis no mercado de trabalho, disparidades de gênero na liderança sênior e assimetrias de oportunidades revelam que o país ainda desperdiça uma parcela massiva de seu potencial criativo devido a estruturas discriminatórias latentes. Para uma publicação como a Plurale, esse dado ressalta a urgência de acelerar as políticas de diversidade corporativa e governamental como vetores de governança e sustentabilidade.
O Potencial Promissor Frente aos Gigantes Globais
Uma das ferramentas mais fascinantes do relatório é a análise de regressão que cruza a Qualidade da Elite com o PIB per capita ajustado por Paridade de Poder de Compra (PPP). Na modelagem matemática do estudo, o Brasil aparece com um resíduo positivo notável. Em termos jornalísticos: a qualidade estrutural das instituições e o potencial de coordenação de suas elites indicam que o PIB per capita atual do Brasil está abaixo do nível previsto. O país, portanto, possui uma sólida infraestrutura represada para um forte ciclo de crescimento econômico e desenvolvimento humano no futuro, condicionado à redução das práticas extrativistas.
A Dança das Cadeiras na América Latina: O Espelho Argentino
A análise comparativa na América Latina reposiciona o tabuleiro regional. O Brasil consolida sua presença na metade superior da região, superando vizinhos de peso histórico. A comparação mais dramática e simétrica do relatório dá-se entre Brasil e Argentina.
Enquanto o Brasil galgou 18 posições rumo ao topo, a Argentina realizou a trajetória inversa, despencando exatamente 18 posições para amargar o 104º lugar global. O relatório diagnostica que os vizinhos platinos encontram-se presos em um "impasse hegemônico destrutivo", no qual suas elites de baixa qualidade política e econômica optaram por um pacto fiscal regressivo que penaliza severamente o consumo e dizima o valor do capital de longo prazo, gerando crônica instabilidade e fuga de cérebros. O Brasil, ao afastar-se desse fantasma da dilapidação de valor, sinaliza maior resiliência institucional aos investidores internacionais.
Apesar de liderar contra a Argentina, o Brasil ainda precisa olhar para cima na vizinhança latino-americana: o Chile mantém-se como a principal referência institucional da região na 37ª posição global (apesar de enfrentar um lento desgaste em seu subíndice de valor), seguido de perto por Panamá (47º), Uruguai (49º) e Peru (50º).
Tabela: O Ranking da Qualidade das Elites na América Latina e Seleção Global (EQx2026)
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País / Região |
Posição Global |
Evolução Anual |
Nota Global (0-100) |
Status do Sistema de Elites |
|
Cingapura |
1º |
0 |
66.1 |
Líder Absoluto |
|
Estados Unidos |
2º |
0 |
65.0 |
Impulsionado por IA |
|
Chile |
37º |
-5 |
53.9 |
Líder Latino-Americano |
|
Uruguai |
49º |
-2 |
51.8 |
Estável |
|
Peru |
50º |
-2 |
51.8 |
Dinamismo vs Fragilidade |
|
Brasil |
54º |
+18 |
51.2 |
Forte Recuperação / Paradoxo |
|
México |
55º |
+10 |
50.9 |
Evolução Moderada |
|
Colômbia |
74º |
-8 |
48.7 |
Desgaste |
|
Argentina |
104º |
-18 |
45.8 |
Impasse Estrutural |
Conclusão: Caminhos para a Verdadeira Sustentabilidade
O panorama global do EQx2026 traz Cingapura na liderança global imbatível, seguida pelo salto tecnológico dos EUA (2º) e a surpreendente capacidade estatal da China, única nação em desenvolvimento no topo (11º). Paralelamente, o progresso do Brasil emparelha-se com o ritmo de reestruturação de outros grandes mercados emergentes, como a Turquia (que subiu 21 posições para 63º) e a África do Sul (que escalou 18 posições para 109º).
Para o Brasil, o Elite Quality Report 2026 deixa uma mensagem cristalina que ressoa perfeitamente nas páginas de Plurale: a recuperação institucional é real e palpável, mas o futuro sustentável do país exige reformas estruturais cirúrgicas. É imperativo canalizar a formidável capacidade de poder das elites políticas e econômicas para longe do rentismo tradicional e direcioná-la rumo à inovação aberta, à diversidade inclusiva e à governança corporativa regenerativa. Somente expandindo o tamanho da torta social de forma inclusiva, o Brasil garantirá que seu crescimento econômico caminhe lado a lado com a verdadeira sustentabilidade humana.










