Do Rio de Janeiro
A medicina brasileira ganhou nesta nesta semana, no Rio de Janeiro, uma iniciativa que nasce com ambição global e vocação profundamente humanitária. Foi oficialmente constituída e registrada a Prostate Access Initiative (PAI), organização criada pelo médico, pesquisador e professor da UERJ Fabrício Carrerette (foto) para ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento do câncer de próstata e de outras doenças urológicas em regiões altamente vulneráveis do planeta.

A nova ONG surge voltada especialmente para populações pobres, sistemas públicos fragilizados e países de baixa e média renda, onde milhões de homens ainda convivem com barreiras dramáticas para acessar exames, cirurgias e acompanhamento especializado. Em vez de concentrar esforços apenas nos grandes centros de excelência, a proposta da PAI é levar ciência, inovação e tratamento justamente aos lugares mais esquecidos pela medicina de alta complexidade.
"A inovação médica não pode continuar sendo privilégio de uma pequena parcela da população mundial. A ciência precisa alcançar também quem vive distante dos grandes centros, quem depende exclusivamente do sistema público e quem historicamente ficou fora dos avanços da medicina", afirma Fabrício Carrerette.
A iniciativa atuará em pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, educação médica e inovação cirúrgica, com foco na criação de soluções acessíveis, sustentáveis e capazes de serem replicadas em larga escala. A ideia é transformar conhecimento acadêmico em impacto social concreto, aproximando a medicina de ponta das populações que mais necessitam dela.
"O objetivo da PAI é construir pontes entre conhecimento e acesso. Não basta desenvolver tecnologia de excelência; é preciso garantir que ela chegue às pessoas que mais precisam", diz o pesquisador.
O nascimento da PAI também simboliza um movimento raro dentro da saúde global: o de uma organização brasileira criada para pensar soluções internacionais a partir da realidade dos sistemas públicos. Em um cenário no qual o avanço tecnológico frequentemente caminha ao lado de custos milionários e acesso restrito, a instituição pretende defender justamente o caminho oposto — o da democratização da inovação.
Por trás do projeto está uma das trajetórias mais singulares da urologia brasileira contemporânea. Integrante da Sociedade Brasileira de Urologia, Fabrício Carrerette tornou-se conhecido por desafiar paradigmas consolidados ao desenvolver, na UERJ, uma técnica inédita de cirurgia aberta para câncer de próstata com custo significativamente inferior ao da cirurgia robótica e resultados funcionais considerados equivalentes em diferentes indicadores clínicos.
Enquanto parte da medicina mundial apostava exclusivamente em plataformas cada vez mais caras, o pesquisador brasileiro decidiu voltar seu olhar para uma pergunta mais ampla: como oferecer excelência cirúrgica também aos pacientes que jamais teriam acesso a tecnologias milionárias? A resposta veio em forma de pesquisa, inovação e compromisso social.
"A verdadeira revolução da medicina não será medida apenas pela sofisticação das máquinas, mas pela capacidade de salvar vidas em qualquer lugar do mundo, inclusive nos cenários mais vulneráveis", afirma Carrerette.
A técnica desenvolvida pelo pesquisador já beneficia pacientes do SUS sem custo adicional e passou a chamar atenção justamente por unir alto desempenho clínico, viabilidade econômica e potencial de aplicação em larga escala. Mais do que uma solução cirúrgica, o trabalho ajudou a construir uma nova visão sobre inovação médica — uma visão em que o verdadeiro avanço não está apenas na sofisticação tecnológica, mas na capacidade de alcançar quem historicamente ficou à margem dela.
A história do pesquisador, porém, ganhou uma dimensão ainda mais poderosa quando a doença que ele estudava diariamente atravessou sua própria vida. Após anos dedicados ao combate do câncer de próstata, Fabrício Carrerette recebeu o mesmo diagnóstico enfrentado por tantos de seus pacientes.
O médico passou então a viver o outro lado do consultório: o medo, a vulnerabilidade, as dúvidas e a angústia que acompanham a descoberta do câncer. Enfrentou o tratamento, venceu a doença e transformou a experiência pessoal em um novo impulso para ampliar sua atuação científica e social.
"Quando me tornei paciente, compreendi de maneira ainda mais profunda o valor do acesso, do acolhimento e da esperança. A PAI nasce também dessa experiência humana e da certeza de que ninguém deveria enfrentar uma doença grave sem oportunidade de tratamento digno", declara.
Hoje, curado, Carrerette reúne uma combinação rara de autoridade acadêmica, experiência clínica e vivência humana. A criação da Prostate Access Initiative consolida esse percurso e projeta o pesquisador da UERJ como um dos nomes brasileiros mais comprometidos com uma medicina inovadora, acessível e global.










