Por Flávia Carvalho Ribeiro, Colunista de Plurale (*)
O Brasil estreia na Copa do Mundo amanhã. E, enquanto o país se prepara para vibrar com a seleção, não é possível fechar os olhos para os episódios que têm acontecido nos bastidores deste torneio. Esse ano, a Copa tem revelado algo que vai muito além do futebol: a crescente tensão entre eventos globais, direitos humanos e agendas políticas nacionais. São questões sensíveis sobre inclusão, discriminação e governança, e que deveriam estar no centro das discussões sobre ESG e gestão de reputação também no esporte.
O caso mais emblemático até agora foi o do árbitro somali Omar Artan, eleito o melhor árbitro africano de 2025 e devidamente credenciado pela FIFA, que teve sua entrada nos Estados Unidos negada, mesmo portando visto válido. O episódio gerou repercussão internacional imediata e escancarou uma contradição difícil de ignorar: um evento que se apresenta como símbolo de união entre nações está, na prática, erguendo barreiras. As restrições migratórias do governo norte-americano preveem exceções para atletas e delegações oficiais, mas, como ficou evidente, a realidade tem sido outra.
Some-se a isso as medidas adotadas pelo governo Trump contra juízes do Tribunal Penal Internacional, incluindo restrições de entrada e sanções, um movimento amplamente criticado por organismos internacionais como uma tentativa de comprometer a independência judicial. Isso amplia o debate sobre respeito às instituições, ao multilateralismo e ao Estado de Direito são temas que investidores e marcas patrocinadoras não podem mais tratar como ruído de comunicação.
Nesse contexto, a Copa acaba se tornando um palco involuntário para escancarar contradições sociais e políticas. Para quem trabalha com ESG, o cenário é de atenção redobrada para gestão de crises. Os patrocinadores desta Copa se veem diante de uma equação delicada: como sustentar narrativas de pertencimento, diversidade e impacto positivo em um contexto que contradiz, publicamente, esses mesmos valores?
Há ainda outro desconforto que merece destaque: a publicidade de plataformas de apostas que dominará os intervalos dos jogos. Ao normalizar as apostas como parte natural do entretenimento esportivo, essa propaganda contribui para transformar um comportamento de risco em hábito cultural com efeitos desproporcionais sobre jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade financeira.
Em um país onde mais de 80% da população convive com endividamento e insegurança financeira, promover modelos de negócio que dependem estruturalmente da perda recorrente de seus consumidores é incompatível com qualquer discurso sobre ética e responsabilidade social. O problema não está apenas nas plataformas de apostas. Está no ecossistema inteiro (marcas, veículos e patrocinadores) que ajuda a legitimar essa narrativa. Ao mesmo tempo, as mesmas corporações assinam cartas de compromisso com os ODS, Agenda 2030, relatórios de sustentabilidade entre outros.
O futebol é um ativo genuíno da cultura brasileira e move pessoas para o bem e a cooperação entre povos. É um dos poucos fenômenos capazes de reunir pessoas de origens, religiões, classes sociais e nacionalidades distintas em torno de uma experiência verdadeiramente compartilhada. A ONU e o Comitê Olímpico Internacional reconhecem o esporte como ferramenta para a promoção da paz, da inclusão social, da educação e do diálogo intercultural. Esse potencial é real e é justamente por isso que não podemos desperdiçar a oportunidade de gerarmos impacto positivo.
Convido o leitor para uma reflexão sobre as forças e as fragilidades em que estamos inseridos enquanto expectadores da Copa do Mundo. E que as empresas que se beneficiam do esporte tenham coragem de ser coerentes, não apenas no discurso, mas nas escolhas que fazem quando ninguém está olhando para a camisa que vestem.
(*) Lifelong learner, mãe solo da Amanda e apaixonada pela natureza, Flávia Carvalho Ribeiro é fundadora da Rizoma Estratégia ESG. Jornalista, advogada, estudiosa e consultora de Sustentabilidade há 20 anos. Mestre em Psicossociologia em Comunidades e Ecologia Social pela UFRJ (2023) e pós-graduada em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela UFRJ. É líder climática pelo Climate Project Brasil, fundada pelo Al Gore desde agosto de 2025. Multiplicadora do Sistema B Corp (novos padrões, 2025).Construiu uma carreira em Comunicação Corporativa e Marketing em grandes agências de PR e empresas, como Vale e Votorantim. Foi consultora de Sustentabilidade das Lojas Americanas (2014 a 2017) onde acompanhou o processo do ISE e criou campanha premiada sobre consumo de energia e água nos folhetos das lojas, impactando 2 milhões de pessoas em parceria com Ziraldo. Como coordenadora de Comunicação do CEBDS, liderou o 1º Guia de Comunicação e Sustentabilidade em parceria com a Aberje. Atuou em ONGs internacionais, como Gerente de Comunicação da World Protection Animal, entre 2010 e 2014, quando advogou pela inclusão do bem-estar animal na agenda de agropecuária sustentável na Rio+20. Desde março de 2017, atua como consultora para setor privado e organizações civis, como B2W Digital, Museu do Amanhã, Recode, Fiocruz, Klabin, incluindo projetos de produção de conteúdo, relatórios de sustentabilidade (GRI), Materialidade e assessoria em comunicação e ESG. Nos últimos seis anos, acompanhou de perto a agenda de mudança climática, como Gerente de Comunicação e Marketing da BVRio e Head de Marketing da WayCarbon. É colunista da Revista Plurale e co-autora do livro "Mulheres da Sustentabilidade - Vol. II da Editora Leader.









