Texto e fotos por Flávia Ribeiro, Colunista de Plurale
De Sâo Paulo

Dois cases apresentados no 3º Congresso Nacional de ESG sobre descarbonização, envolvendo também a cadeia de fornecedores (escopo 3) responsável pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa (GEE), mostraram como as empresas brasileiras estão avançando na relação com sua cadeia de valor.
O painel "Descarbonização com Impacto Real", com mediação de Davi Canassa, CEO da Davi Canassa Strategy & Advisory, trouxe um case de sucesso envolvendo a AMBEV e dois fornecedores estratégicos: a Cooperativa Agrária Agroindustrial e a VALGROUP. Paula Vieira, Gerente de Carbono e Clima da AMBEV, Rodrigo Lass, Gerente de Estratégia e Sustentabilidade da Cooperativa Agrária Agroindustrial, e Larissa D'Otaviano, Diretora de Sustentabilidade da VALGROUP, discutiram os desafios para a redução de emissões, a formação de ecossistemas colaborativos e o engajamento da cadeia de fornecedores.
A VALGROUP, por exemplo, já reduziu mais de 60% das emissões dos escopos 1 e 2, mas enfrenta um desafio maior no escopo 3, que responde por 98% do total de suas emissões, concentrado em cinco petroquímicas fornecedoras. "Não adianta ter um plástico 100% descarbonizado se ele custar muito caro. É preciso olhar para todo o processo, caso contrário, a indústria não comprará", afirmou Larissa.
Rodrigo Lass reforçou a importância de analisar dados, gerar resultados e sinalizar progresso de forma transparente. A cooperativa passou a medir a pegada de carbono por tonelada de malte entregue e a otimizar rotas logísticas, a partir de uma cultura de eficiência incorporada da parceria com a AMBEV. Na prática, implementaram um escopo 3 de verdade, não como obrigação de reporte, mas como transformação sistêmica da cadeia.
A plataforma Eclipse, da AMBEV, foi o instrumento que viabilizou a coleta de dados primários direto dos fornecedores, ampliando a rastreabilidade e criando um ecossistema de cooperação real. A transformação do escopo 3, nesse caso, começou com parceria e tecnologia acessível a toda a cadeia. Paula Vieira citou ainda a 100+ Labs Brasil, plataforma aberta de inovação liderada pela AMBEV em parceria com a PepsiCo, voltada a soluções de descarbonização.
O desafio para o agronegócio
A descarbonização do agronegócio brasileiro passa, cada vez mais, por uma equação simples: sustentabilidade com retorno econômico. Em um segundo painel sobre o tema, mediado por Talita Martins, CEO da Equos Consultoria ESG, especialistas destacaram que a transição para uma economia de baixo carbono só ganhará escala quando os benefícios financeiros estiverem claramente mensurados.
Claudia Veiga, conselheira da Associação Brasileira de ESG, citou um estudo do CEBDS "Perspectivas para o Agro 2050" que aponta práticas como integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de pastagens degradadas, florestas plantadas e uso de bioinsumos entre as principais alavancas para reduzir emissões do setor.
A experiência da SLC Agrícola reforça essa visão. Segundo Tiago Acne, Gerente de Sustentabilidade da SLC Agrícola, a digitalização da operação e o monitoramento em tempo real das fazendas permitiram uma economia de R$ 58 milhões na última safra, com retorno de R$ 12 para cada R$ 1 investido em tecnologia. A eficiência operacional resultou ainda em redução de 34% nas emissões e de 18% no consumo de combustível das máquinas agrícolas.
"O desafio agora é ampliar a conectividade no campo, considerada um dos principais gargalos para acelerar a transformação sustentável do agro brasileiro. A descarbonização é uma consequência da eficiência operacional", destacou Acne. A SLC Agrícola planta em uma área equivalente a 5 cidades de São Paulo (837 mil hectares) e opera com conexão 4G de internet em 26 fazendas distribuídas em oito estados, uma escala que evidencia tanto o potencial quanto os desafios de levar tecnologia a todas as pontas da operação agrícola brasileira.










