Por Flávia Carvalho Ribeiro, Colunista de Plurale
Especial para a Revista Plurale
.jpeg)
O avanço da Inteligência Artificial (IA) no ambiente corporativo mudou definitivamente de patamar. A "sociedade do desempenho" como cita o filósofo Byung-Chul Han, ganha novos contornos na atualidade. Em busca de eficácia e equilíbrio, profissionais e lideranças começam a delegar tarefas operacionais para a alta performance das máquinas, que assumiram de vez a linha de frente da otimização de processos.
Essa transformação profunda e suas implicações éticas ditaram o tom do painel "O Futuro do Trabalho na Era da IA", um dos grandes destaques do 3º Congresso Nacional de ESG. Com mediação assertiva de Renata Vilenky (Conselheira da Associação Brasileira de ESG), o debate reuniu perspectivas valiosas de Mariana Miranda (Akad Seguros), Emerson Moraes (Tuvis) e Milena Bizzari (Forvis Mazars).
A Evolução dos Negócios: estratégia e governança
Os especialistas reforçaram que, desde 2020, a percepção dos executivos sobre a IA se transformou. O que começou como uma experimentação simples de ferramentas de chat evoluiu para a urgência de frameworks estruturados, capazes de tornar a tecnologia verdadeiramente relevante para a estratégia de negócios.
Hoje, a IA já se mostra incontestavelmente superior para organizar e otimizar fluxos complexos, com aplicações práticas que cruzam diferentes setores:
- Escritórios de advocacia: na análise preditiva e triagem de imensos volumes de dados jurídicos.
- Áreas de suprimentos (compras): para a seleção inteligente e sustentável de fornecedores.
- Linhas de produção automotiva: onde o intrincado enfileiramento e a combinação de cores de veículos são programados de forma muito mais ágil e eficiente pela máquina.
No entanto, o encontro também trouxe as discussões sobre riscos e os alertas urgentes de governança. O primeiro grande gargalo apontado pelos painelistas foi a cibersegurança. O uso informal de ferramentas gratuitas ou por meio de contas de pessoa física dentro do ambiente corporativo tem provocado o vazamento involuntário de dados confidenciais e segredos de negócio para plataformas externas. O mercado global, inclusive, já acumula resultados severos pela falta de supervisão humana e de critérios éticos na implementação da IA. Foram trazidos à mesa exemplos emblemáticos que a imprensa tem divulgado:
- Setor médico: o alerta para o risco de perda da qualidade diagnóstica pela dependência excessiva de laudos automatizados, em detrimento da insubstituível capacidade de análise clínica humana.
- Auditoria global: o escândalo da Deloitte na Austrália, decorrente da ausência de checagem e validação humana de informações geradas por sistemas automatizados.
- Educação: os debates sobre a queda na qualidade educacional, potencializada pelo excesso de telas e pela proliferação de conteúdos gerados em massa sem qualquer critério pedagógico ou científico.
A IA nos foi apresentada inicialmente sob a roupagem de uma simples "assistente". No entanto, terceirizar o nosso trabalho para a máquina é um erro estratégico perigoso. A IA falha e pode "alucinar", termo técnico para o fenômeno em que o algoritmo inventa fatos, dados ou, no limite, cria uma lei inexistente, por exemplo.
"É preciso ter repertório para poder criticar o que a máquina está fazendo", alertou Milena Bizzari. Quando mal operada ou aceita sem filtros, a tecnologia deixa de ser um ganho e passa a gerar graves riscos operacionais, reputacionais e, em setores regulados, até riscos reais de vida.
O Desafio do Letramento Digital e o Papel do Líder
Diante desse cenário, o grande desafio atual das organizações não é a escassez de tecnologia, mas a capacitação de suas equipes. Como exigir responsabilidade de um profissional recém-chegado se ele não for digitalmente letrado para discernir os limites da ferramenta? Os debatedores foram unânimes: o letramento em IA precisa ser integrado à cultura da empresa desde o momento do onboarding.
Para ilustrar como exercer essa governança na prática, Emerson Moraes, da Tuvis, compartilhou sua experiência pessoal. Ele desenvolveu um assistente de IA customizado para otimizar a triagem de seus e-mails e interações no LinkedIn. Contudo, estabeleceu uma barreira ética inegociável: a máquina está proibida de redigir posts ou responder mensagens de forma automatizada. O controle final, a sensibilidade e a autenticidade continuam estritamente em suas mãos.
A IA funciona como um acelerador potente de produtividade. Estudos de proteção digital, como o relatório Mitos, publicado pela Anthropic (desenvolvedora do sistema Claude), reforçam a necessidade mútua de evolução em tecnologia e segurança comportamental.
Ao final, conclui-se que a verdadeira virada de chave é cultural. A alta liderança precisa estar preparada para capitanear decisões complexas que envolvem ética, riscos de privacidade e segurança da informação. Os humanos não serão substituídos pela tecnologia, mas sim por aqueles profissionais que estão se desenvolvendo, expandindo seu repertório e aprendendo a dominar a inteligência artificial com senso crítico e profunda humanidade.










