POR CLAUDIA PENTEADO, Colunista Plurale (*)

Eu cheguei à ecopsicologia por curiosidade jornalística e também pessoal, já que o termo vinha aparecendo em conversas sobre saúde mental, crise climática, banho de floresta, ansiedade ambiental e novas formas de relação com a natureza. Havia algo ali que parecia responder a uma sensação contemporânea difícil de negar: a de que o mal-estar do nosso tempo já não cabe apenas dentro das categorias tradicionais da vida privada. Queria entender para além do senso comum, que costuma inserir certos termos e conceitos no (elástico) vocabulário do "bem-estar", esse território onde quase tudo pode virar método, promessa, produto.
Foi nesse estado de atenção que eu conversei com a psicóloga Junguiana, professora e tradutora Lorena Kim Richter, que vem se dedicando ao tema, sobre do que se fala quando se fala em ecopsicologia. Se estamos diante de uma abordagem clínica, de um campo teórico, de uma prática terapêutica, de uma filosofia do cuidado ou de um pouco de tudo isso. Lorena me conta que sua história passa por ecologia, cultura indígena, filosofia, ecologia profunda, Gestalt-terapia, psicologia analítica de C.G. Jung e, sobretudo, pelo trabalho de Theodore Roszak, autor de The Voice of the Earth, livro publicado nos anos 1990 e considerado uma das obras fundadoras do campo.
Ela observou que talvez o problema não fosse apenas a existência de novas formas de sofrimento, mas a falta de palavras para reconhecê-las. A ecopsicologia, na leitura dela, amplia a pergunta clássica da psicologia. Em vez de investigar somente o que aconteceu com o sujeito, pergunta também em que mundo esse sujeito vive e de que mundo ele adoece. “A alma/psique não pode ser privatizada dentro de um consultório clínico que trata somente de nossa individualidade, separada do mundo”, disse.
Durante muito tempo, aprendemos a pensar o sofrimento psíquico a partir da infância, da família, da sexualidade, do amor, do trabalho, dos traumas, dos desejos frustrados, daquilo que nos aconteceu ou deixou de acontecer. Tudo isso continua a importar. Mas a ecopsicologia pergunta se há também uma dimensão do sofrimento que nasce da ruptura com o lugar, com a paisagem, com os ciclos, com o território, com a matéria viva que nos cerca e nos constitui. Não se trata apenas de afirmar que a natureza faz bem, embora essa ideia esteja por trás de práticas hoje mais conhecidas, como o banho de floresta. Trata-se de perguntar o que acontece conosco quando passamos a viver como se estivéssemos separados da natureza.
Lorena me contou que no bairro onde trabalha, um bosque inteiro foi derrubado em dezembro de 2025 para abrir espaço para um empreendimento imobiliário. Segundo seu relato, os moradores não foram consultados, os protestos foram acompanhados por policiais armados e, com o calor, micos e pássaros deslocados pela destruição da vegetação morreram. A cena poderia estar numa reportagem sobre expansão urbana, especulação imobiliária ou conflito ambiental. A pergunta da ecopsicologia seria: por que uma perda como essa quase nunca é reconhecida também como perda psíquica?
A dor diante da destruição de um lugar raramente parece assunto autorizado para a clínica. Pode soar sentimental demais, difusa demais, externa demais. No entanto, palavras como solastalgia, ecoansiedade e luto ecológico vêm justamente tentando nomear esse mal-estar que não é apenas íntimo, mas também não deixa de atravessar a intimidade. Solastalgia, termo criado para descrever a angústia provocada pela degradação do lugar onde se vive, talvez seja a mais precisa dessas palavras, porque desloca a nostalgia do tempo para o espaço. Não é apenas saudade do que passou, mas a dor de continuar ali enquanto o lugar deixa de ser reconhecível.
Talvez o melhor modo de se aproximar da ecopsicologia seja com cuidado, prestando atenção para evitar os jargões do senso comum, a romantização da natureza, a apropriação superficial de saberes tradicionais, a perigosa captura pelo mercado do bem-estar. A grande questão que se coloca é que a crise ambiental não está apenas fora de nós - nos relatórios científicos, nas enchentes, nas ondas de calor, nas árvores derrubadas e nos mapas de risco - mas atuando silenciosamente na forma como dormimos, respiramos, criamos filhos, olhamos para a cidade, tentamos imaginar o futuro, sentimos.
No Brasil, essa conversa ganha muitas camadas adicionais. Falar de vínculo com a terra aqui é falar de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, periferias urbanas sem sombra, mineração, hidrelétricas, enchentes, deslizamentos, calor extremo, disputa por território e deslocamentos involuntários. Aqui a ecopsicologia tem que atravessar essa realidade sem oferecer a natureza como bálsamo privado para males que são essencialmente coletivos.
A conversa com a Lorena ficou ecoando. A ecopsicologia diz algo sobre o nosso tempo, em que a destruição do mundo vivo começa a exigir não apenas novos acordos, novas políticas e novas métricas, mas também novas formas de escuta. A pergunta que fica não é apenas o que estamos fazendo com o planeta. Mas o que essa destruição está fazendo conosco.
(*) Claudia Penteado é Jornalista colaboradora do caderno Eu &, do jornal Valor Econômico. Escreve sobre comportamento e tendências e atua como curadora de conteúdo, ghostwriter e podcaster. Mora no Rio de Janeiro, é casada e mãe da Juliana, de 23 anos.







