Por Flávia Ribeiro, Colunista de Plurale (*)

O Japão perdeu do Brasil essa semana na Copa do Mundo, mas bate um bolão quando o assunto é cuidado coletivo e senso de colaboração, valores estruturantes da cultura japonesa. No Japão, geralmente não há funcionários para limpar corredores e banheiros nas escolas. Os próprios alunos cuidam desses espaços, com um pano de limpeza costurado à mão e levando o próprio nome desde a infância. O indivíduo cresce entendendo que um lugar usado deve ser deixado melhor do que se encontrou, e que o bem-estar do grupo está acima do conforto individual.
Essa lógica silenciosa é o que sustenta uma das cenas mais comoventes do esporte mundial nos últimos anos e que deveria nos fazer parar e refletir sobre o que entendemos, afinal, por civilidade. Na Copa do Mundo de 2026, essa filosofia ganhou forma física e visual nas arquibancadas dos Estados Unidos: sacolas plásticas azuis, erguidas pelos torcedores japoneses como bandeiras de torcida do Samurai Blue, vibrando junto a cada gol e a cada lance emocionante.
Durante o jogo contra a Holanda, os torcedores acenaram as sacolas cheias de ar acima da cabeça como se fossem bandeiras, no calor da comemoração. Mas o espetáculo da torcida terminou como ato de respeito: ao fim da partida, as mesmas sacolas estavam cheias de lixo e o setor impecavelmente limpo. Segundo um dos principais jornais japoneses (Mainichi), essa tradição nasceu na Copa de 1998, na França, e os torcedores a mantêm em cada Mundial desde então.
Sou fã dos japoneses: eles prezam a disciplina e o cuidado com o próximo. São respeitosos, educados, determinados. Nunca estive no Japão, mas o relato de amigos e familiares só comprova que não é apenas o gesto, mas a naturalidade com que ele acontece. Recordo do filme “Dias Perfeitos” onde a protagonista limpa os banheiros públicos de Tóquio e contempla a vida com uma satisfação plena.
Por que, em tantas culturas e, inclusive no Brasil, associamos festa a bagunça e a desorganização? Por que tratamos espaços públicos como territórios sujos onde "alguém depois limpa"? Como estruturar uma cultura que não desconecte o prazer individual da responsabilidade coletiva?
Talvez o problema não seja a falta de educação ambiental nas campanhas de comunicação que produzimos, mas a falta de pertencimento: dificilmente alguém suja um lugar que sente como seu. A sustentabilidade, vista por essa perspectiva, deixa de ser pauta sobre economia circular e reciclagem e passa ser vista pela forma como nos relacionamos com os espaços públicos e sobre o que a nossa ausência revela.
Cerca de 15 mil sacolas foram levadas nas bagagens individuais de voluntários para garantir a limpeza das arquibancadas. A distribuição das sacolas nos estádios foi feita por meio de uma logística organizada por torcedores voluntários.
Os próprios pesquisadores japoneses debatem se o gesto nasce de civismo genuíno ou de pressão social para não destoar do grupo. Mas, seja qual for o motivo, o resultado é um convite: e se cuidar do outro e do ambiente que se compartilha fosse parte do próprio jeito de comemorar, e não um dever à parte, cobrado depois que a festa acaba?
Penso que essa é a maior vitória que o torcedor japonês já trouxe para uma Copa do Mundo, independentemente do resultado do placar, é esse exemplo inspirador. Após a vitória da Seleção sobre o Japão por 2 a 1, torcedores brasileiros também foram vistos recolhendo o lixo no NRG Stadium, em Houston, nos Estados Unidos. Temos muito o que aprender com os japoneses e, sem dúvidas, a Copa é muito mais do que futebol.









