POR FELIPE ARARIPE E SÔNIA ARARIPE, DE PLURALE
FOTOS DE MATHEUS LEMOS/ INEMA E DE ARQUIVO PESSOAL
O Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia - o INEMA - multou as empresas Gerdau Aços Longos em R$ 50 milhões e Intermarítima Portos e Logística (Terminal Itapuã) em R$ 20 milhões por contaminação química na praia de São Tomé de Paripe, no subúrbio de Salvador, onde está localizado o Terminal Portuário 2 de Julho. Metais pesados e produtos químicos - como cobre dissolvido, nitrato, nitrito e nitrogênio amoniacal - foram encontrados na faixa de areia, na água e no lençol freático. As empresas se defendem - uma jogando a responsabilidade para a outra - e indicam que irão recorrer das penalidades milionárias, as maiores já aplicadas pelo Instituto de fiscalização ambiental da Bahia.
A Gerdau Aços Longos alega que "operou por cerca de 30 anos o referido terminal cumprindo todas as exigências legais ambientais, tanto que nunca houve, durante sua gestão, qualquer contaminação dessa gravidade"; que vendeu o terminal em 2022, que não tem mais operação na Bahia, e que quando repassou a operação, estava em total conformidade com todas as normas e legislação. Já a Intermarítima, que assumiu a operação da Gerdau em 2022, argumenta que a contaminação é histórica, da época da administração da Gerdau, anterior à sua gestão na área, que não movimenta carga relacionada com as substâncias encontradas na praia; e que, portanto, não deve ser penalizada.

Foto de Matheus Lemos/ INEMA - Divulgação
A população da área sofre com a situação. A praia está interditada para banho e pesca: São Tomé do Paripe, antes considerado um local aprazível de lazer para moradores, e de trabalho para percadores, marisqueiros e quiosqueiros, agora está vazia. Apenas algumas pessoas se arriscam e desrespeitam as placas que alertam para os riscos para quem frequentar o local. Manchas azuis e verdes começaram a aparecer na região em fevereiro de 2026, quando foram iniciadas análises técnicas e fiscalizações do INEMA. Desde então, órgãos ambientais passaram a investigar as causas da contaminação, com coleta de amostras e análise laboratorial. Moradores protestaram em março na frente do principal acesso ao Terminal Marítimo e também participaram de várias reportagens na TV local - e de uma audiência na Câmara dos Vereadores, quando se queixaram do impacto causado pela contaminação.

São Tomé de Paripe / Foto de Arquivo Pessoal.
O INEMA realizou análises de material recolhido em São Tomé do Paripe: da água do mar, da areia, de sedimentos e também do lençol freático. Técnicos confirmaram a contaminação de metais e de produtos químicos - como cobre dissolvido, nitrato, nitrito e nitrogênio amoniacal. Para o Instituto, "ambas as empresas contribuíram para o cenário". Segundo o órgão, "a contaminação está ligada ao trabalho de estocagem e à movimentação de materiais do Terminal". As multas milionárias foram aplicadas no dia 3 de junho, mas ganharam divulgação somente em 20 de junho, com a intimação formal das empresas. As companhias agora podem apresentar seus argumentos para defesa administrativa. Em nota, o Inema informou que "os recursos provenientes das multas administrativas são destinados ao Fundo Estadual de Recursos para o Meio Ambiente (Ferfa), vinculado à Secretaria do Meio Ambiente (Sema), e podem ser aplicados em ações de preservação, de recuperação e de melhoria da qualidade ambiental, conforme a legislação estadual e o planejamento ambiental do Estado."
Respostas das empresas
Gerdau
Procurada por Plurale, a Gerdau respondeu as perguntas enviadas por Plurale com base em nota, enviada pela assessoria de imprensa. Reforçou que "a atuação da Gerdau foi encerrada em 2022 com a venda do terminal para a empresa Intermarítima, sendo a licença ambiental do ativo devidamente transferida para o novo proprietário em janeiro de 2022, seguindo a aprovação dos órgãos regulatórios competentes. Desde então, a operação no local está sob responsabilidade única e exclusiva da nova operadora". A Gerdau informou ainda que "o caso ainda está em investigação - e que, até o momento, nenhuma análise técnica realizada foi conclusiva quanto às reais causas. A Gerdau refuta a tese de que há conclusões de que as manchas atuais configuram passivo histórico acumulado durante as operações anteriores, bem como refuta acusações que comprovem que a contaminação em São Tomé de Paripe seja fruto de sua operação no Terminal Marítimo". A companhia - através de nota - destaca que " o nitrogênio amoniacal, identificado em elevadas concentrações nas áreas afetadas, é um composto cuja ocorrência está associada a fontes recentes de contaminação, quando a Gerdau já não operava mais na área." E finaliza a mota descando que "a Gerdau operou por cerca de 30 anos o referido terminal cumprindo todas as exigências legais ambientais, tanto que nunca houve, durante sua gestão, qualquer contaminação dessa gravidade." E que, durante seu período de operação, "a companhia sempre realizou o monitoramento ambiental na área de influência direta; e que as campanhas eram conduzidas conforme metodologias técnicas aplicáveis e em linha com a legislação." A companhia - mesmo reiterando não ser mais responsável pela operação - destacou que se mantém à disposição das autoridades e solidária com a população.
Intermarítima
A Intermarítima também respondeu à Plurale através de nota enviada pela assessoria de imprensa. Informou que, desde o aparecimento das primeiras manchas em São Tomé do Paripe, em fevereiro deste ano, "tem colaborado com as autoridades e atuado com total empenho para avaliar as condições ambientais do mencionado trecho da praia, da água do mar e dos sedimentos marinhos do seu entorno." Afirmou ainda que opera o Terminal Itapuã desde 2022 com fertilizantes e que "não transporta qualquer produto perigoso ou material de coloração azul ou verde, como o que apareceu a partir do mês de fevereiro na areia da praia". A operadora portuária também alegou que "conforme estudos e pareceres já apresentados, o cobre, o manganês e outros metais pesados que agora surgiram na praia, eram pré-existentes, de quando o terminal era operado pela Gerdau, que trabalhou no equipamento até o início de 2022 e ainda é a proprietária oficial do local." A nota destaca ainda que "tanto estavam presentes antes desde 2022, que o INEMA aplicou uma multa de 50 milhões de reais para a Gerdau – o valor máximo possível para ser arbitrado para esse tipo de caso. A empresa Terminal Itapuã finalizou a nota enviada reafirmando estar "solidária e que sempre esteve ao lado da comunidade de São Tomé de Paripe e aguarda que as autoridades competentes prestem todas as informações e definam a assistência necessária de acordo com a responsabilidade real de cada agente envolvido".
Nota do INEMA
"Desde o início da ocorrência registrada na Praia de São Tomé de Paripe, em Salvador, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) atua de forma contínua na apuração do caso, adotando medidas emergenciais para conter os impactos ambientais e proteger a população. Entre as ações adotadas estão a interdição temporária das atividades do Terminal Itapuã Ltda., a recomendação de restrição de acesso ao trecho diretamente afetado, a emissão de exigências técnicas para investigação e remediação ambiental pelas empresas responsáveis e a aplicação de multas administrativas ao Terminal Itapuã Ltda., no valor de R$ 20 milhões, e à Gerdau Aços Longos S.A., no valor de R$ 50 milhões, por contribuírem para a contaminação das águas intersticiais, águas subterrâneas, sedimentos, águas marinhas e da biota da região. Os recursos provenientes das multas administrativas são destinados ao Fundo Estadual de Recursos para o Meio Ambiente (Ferfa), vinculado à Secretaria do Meio Ambiente (Sema), e podem ser aplicados em ações de preservação, recuperação e melhoria da qualidade ambiental, conforme a legislação estadual e o planejamento ambiental do Estado. A infração foi caracterizada como efetiva poluição ambiental após análises documentais, inspeções técnicas e coletas de amostras realizadas pelo Inema nos dias 20, 24 e 26 de fevereiro; 2, 7 e 14 de abril de 2026, tanto na Praia de São Tomé de Paripe quanto no Terminal Itapuã. Os resultados confirmaram a presença de compostos químicos contaminantes em diferentes pontos da área investigada, incluindo concentrações elevadas de compostos nitrogenados e metais, especialmente cobre, na água intersticial, nos sedimentos, na água marinha e em organismos marinhos, evidenciando o impacto ambiental decorrente das atividades das empresas. Além das multas, o Terminal Itapuã Ltda. permanece interditado e notificado para cumprir todas as exigências técnicas determinadas pelo órgão ambiental, incluindo a realização de estudos complementares e a execução de medidas de remediação para mitigação dos danos e recuperação da área afetada. Como medida de proteção à população, o Inema ampliou a área de restrição para atividades de contato primário e instalou quatro placas de sinalização na região, reforçando a orientação para que a população evite banho, pesca e qualquer contato direto com a água e os sedimentos no trecho afetado, que permanece classificado como impróprio para recreação de contato primário, conforme a Resolução Conama nº 274/2000."










