DE MAURETTE BRANDT, ESPECIAL PARA A PLURALE
DE PARATY, RJ
![]()
Foto de Rovena Rosa/Agência Brasil
Angela Davis é grande o suficiente para conversar com as marés, as pessoas e todas as tendências. O simples fato de estar na Flip já reacende esperanças para uma humanidade que enfrenta horrores como a violência de gênero, a discriminação e ondas racistas que eram impensáveis, na dimensão que vemos hoje, há poucos anos. E Woyle Soyinka, o primeiro escritor africano a ganhar um Prêmio Nobel, que dividiria a mesa com Davis, mediada pela jornalista Flávia Oliveira, infelizmente não pôde viajar ao Brasil, por questões de saúde. Seria uma oportunidade incrível ouvir os dois juntos.
A voz de Angela Davis na Flip, mesmo quando ouvida pelo YouTube, como eu ouvi, é forte, taxativa, determinada. Sua força e presença me fazem lembrar das multidões que Martin Luther King arrastava por toda a América, no final da década de 1960. Era um tempo de libertação, de mudança e de crescimento. E me lembrei, também, da importância da série de tv Raízes, de 1977, adaptada do romance homônimo de Alex Haley, publicado no ano anterior. A série, um sucesso retumbante no mundo inteiro, mostrou às claras o sofrimento dos escravizados nos Estados Unidos, mas que refletia os horrores experimentados em todos os países, como o Brasil, onde a escravidão prosperou por centenas de anos.
O respeito de Angela Davis por personalidades do movimento negro brasileiro, como Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo, para citar apenas algumas, demonstra o quanto sempre esteve ligada ao movimento aqui no Brasil – país que, admite, é o lugar que mais gosta de visitar no mundo inteiro.
Em tempos pontiagudos, em que pessoas são expulsas de sua terra natal por razões absolutamente indefensáveis e por motivos espúrios, ter a voz e a palavra de Angela Davis justamente no espaço da Flip, em Paraty – em cujas ruas e vielas muitos fantasmas de escravizados talvez permaneçam, como lenda ou memória – é algo grande demais para se dimensionar.
A Flip permanece como um espaço de pluralidade intelectual, de discussões abertas sobre os caminhos de um mundo desatinado e confuso quanto ao caminho a seguir. E ter Angela Davis no contexto da Flip, por tudo que ela representa e representou para abrir caminhos de liberdade não só para o movimento negro, mas para a sociedade como um todo, é importante demais para todos nós, em qualquer lugar do Brasil ou do mundo.
Espero que as famosas marés paratienses tenham benzido seus pés com o sal das nossas águas, para que volte logo e divida conosco sua força, seu sorriso, sua determinação e alegria. Venha sempre, Angela! A Flip, Paraty e o Brasil abrem os braços pra você!










