DE MAURETTE BRANDT, ESPECIAL PARA PLURALE
DE PARATY, RJ

Foto de Divulgação
Graças às leis de mobilidade e à atenção de sempre do receptivo da Flip, desde o ano passado estou na primeira fila, na linha de frente, na cara do gol. Ou seja: quase no palco. Isso favorece o trabalho do jornalista, sem dúvida; entre eu e meus companheiros de gargarejo, os autores convidados e os mediadores, tem um quase nada de chão. Desse posto privilegiado, é fácil examinar os rostos e absorver as expressões de quem participa de cada mesa.
Pois foi esta proximidade que me permitiu rever, após anos sem conta, a estupenda Denise Stoklos, na estreia de seu novo espetáculo: “Dalton Trevisan que tinha um cachorro”. Quando entrei, Denise, criteriosa, ainda ajustava a luz no palco, segundos antes de começar o espetáculo. Congelei, eletrizada e feliz por poder observar a artista num momento tão íntimo e interior como aquele.
Desde a primeira vez que fui morar ano Rio e abracei as alegrias da arte, tornei-me fã desse ser elástico, intuitivo e expressivo que é Denise Stoklos. Neste pré-instante, respiro junto com ela, como se acompanhasse o seu ritmo, cada músculo em movimento, cada emoção espontânea. Voltei no tempo, contemplando sua energia e rigor. Descobri, por acaso, que ao meu lado está a diretora do espetáculo, Alessandra Maestrini. Na cena, porém só tenho olhos para Denise, como se fosse um filme no qual entrei sem perceber.
São segundos, passos medidos, evoluções de um corpo que cria histórias, restaura o tempo e se torna magia. Não acredito em minha sorte; estou presenciando um momento de criação. E isto é muito grande, muito maior do que sonhei testemunhar.
Totalmente concentrada e com os mesmos olhos claros de criança diante da primavera que recordo, atenta ao menor movimento dos músculos, Denise começa o espetáculo. E fala, o que é uma novidade para alguém que sempre a viu fantástica em movimento, mas sem emitir sons. Agora interpreta, com a própria voz, variados textos de Dalton Trevisan, com imensa desenvoltura e dramaticidade. Segui-la pelo palco, pela energia corporal e ainda com tanto poder dramático, é emoção, é alegria, é uma festa mesmo nos momentos mais interiorizados.
Tiro umas poucas fotos sem flash, praticamente imóvel. E tomo pito. Mas o que fazer com a alma que quer pelo menos um instantâneo que possa representar seu desenho, seu gesto, seu drama e força para quem lê, mas que precisa sobretudo ver? Afinal, escrevo, mas o corpo da atriz é que fala.
O roteiro é forte, os textos bem escolhidos; o clima, o temperamento do autor, bastante conhecido por seu estilo nem sempre tão doce, eu diria, tudo está presente na poética que Denise Stoklos desenvolve com plasticidade, com o coração, com a esperança agarrada nos músculos e com a força que brota, livre, em intenção e gesto.
A emoção é forte. O texto corporal, como sempre, supera qualquer palavra. Denise, inteira, só ela no palco, já é uma epopeia. Acompanho com respeito e silêncio, quase a conter a respiração. Afinal, estamos diante do drama, da força e da delicadeza de uma artista muito particular, única em seu métier, até o ato final. O tempo nem conta. O que conta é Denise, em sua intensidade precisa e sua arte inigualável. Que bom que a Flip é capaz de nos proporcionar uma alegria como esta!










