TEXTO E FOTOS DE ANATRÍCIA BORGES, ESPECIAL PARA A PLURALE
DO RIO DE JANEIRO, RJ

Quase um século separa o Rio de Janeiro de hoje do registro memorialístico escrito por Armando Magalhães Corrêa em O Sertão Carioca (1936). Naquela época, ao se mudar para Jacarepaguá, o escritor registrou as paisagens de um local desértico e inóspito, emoldurado por águas límpidas e margens preservadas. Hoje, após extensos ciclos e impactos da expansão urbana desordenada na Região Oeste — atual Zona Sudoeste e a de maior concentração populacional da cidade —, o Complexo Lagunar formado pelas lagoas da Tijuca, Jacarepaguá, Camorim e Marapendi vivencia um novo e decisivo capítulo histórico.
Comparar o Complexo Lagunar do início dos anos 2000 com a realidade atual é vivenciar um processo de recuperação em curso, mas que ainda exige muito esforço, trabalho, gestão e coparticipação do poder público, empresas e da população. Coberto pelo acúmulo da poluição, pelo avanço desordenado e pelas cicatrizes do crescimento urbano que sufocaram os manguezais, transformando espelhos d'água em áreas degradadas, vem ganhando materialidade nas ações do programa "Juntos Pela Vida das Lagoas", liderado pelo biólogo Mario Moscatelli e sua filha, Carolina Moscatelli, em conjunto com a concessionária Iguá Rio. A iniciativa alcançou o marco de mais de 85 mil mudas de mangue plantadas, promovendo o reflorestamento ativo do ecossistema costeiro na região, e prevê uma mudança para um sistema lagunar navegável ao ecoturismo nos próximos 4 anos.

Mario Moscatelli. Foto de Anatrícia Borges
Os sinais de recuperação do ecossistema já são visíveis e mensuráveis com o retorno da fauna local. Os crustáceos caranguejo-uçá e chama-maré foram os primeiros bioindicadores a repovoar os novos manguezais, atestando a melhoria da qualidade do solo e da água. A vida selvagem protagoniza ainda momentos inéditos na história ecológica carioca: a biguatinga (Anhinga anhinga), ave sem registros anteriores de nidificação no município do Rio de Janeiro, voltou a ser vista formando ninhos na Lagoa da Tijuca, com mais de 18 indivíduos catalogados. A paisagem aquática também voltou a ser enriquecida por espécies emblemáticas como a garça-boiadeira, a garça-azul e o vibrante colhereiro, famoso por sua plumagem em tom rosa.
“Os manguezais representam a espinha dorsal da saúde ambiental do complexo lagunar. Com raízes entrelaçadas que funcionam como verdadeiros filtros naturais, a vegetação atua estabilizando e protegendo as margens contra a erosão, além de servir de abrigo e zona de reprodução para dezenas de espécies. A relevância dessa vegetação transcende a escala local. No cenário global de emergência climática, esses ecossistemas destacam-se como poderosos sumidouros de carbono ("carbono azul"), capazes de capturar e reter no solo entre 6 e 8 toneladas de dióxido de carbono por hectare a cada ano”, explica Mario Moscatelli.
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Foto de Anatrícia Borges
A virada de jogo no complexo envolve um trabalho árduo, que inclui equipes atuando em obras de dragagem e na despoluição progressiva. Um dos maiores trunfos do programa é a implantação dos chamados coletores de tempo seco, sistemas que interceptam o esgoto que seria despejado irregularmente nas galerias de águas pluviais. Mas, apesar dos avanços técnicos, um passeio pelo sistema lagunar demonstra que a restauração plena ainda exige um passo crucial: a conscientização e a participação direta da população para eliminar o despejo inadequado de resíduos — como garrafas plásticas, móveis e pneus — que ainda chegam às águas.
O sucesso da empreitada depende diretamente da articulação e da vontade de coparticipação entre o poder público, as empresas e a sociedade civil, como afirma Moscatelli.” Já passou da hora de todos perceberem a importância deste sistema e se conscientizarem de que é preciso dar um basta na degradação, o mangue funciona como um filtro. “Os manguezais não são apenas vegetação; eles são a espinha dorsal e os pulmões do nosso ecossistema costeiro. Suas raízes funcionam como filtros naturais gigantescos que limpam a água, contêm a erosão e garantem o abrigo necessário para a vida marinha e as aves proliferarem. Recuperar os mangues é, literalmente, devolver a vida e a dignidade ao ambiente do Rio de Janeiro.” diz Moscatelli.

Foto de Anatrícia Borges










