POR GUSTAVO MELO, COLUNISTA DE PLURALE (*)

Quando falamos em El Niño, é provável que a primeira imagem que venha à cabeça seja aquela conhecida sequência do noticiário: mapas coloridos, recordes de temperatura, seca em uma região, chuva demais em outra, lavouras sofrendo e alguém explicando o aquecimento das águas do Oceano Pacífico. Tudo muito climático. Tudo aparentemente distante das análises, dos balanços e das decisões do mercado.
Aparentemente.
Porque o El Niño pode começar no Pacífico, mas não necessariamente termina por lá. Ele atravessa plantações, mexe com safras, altera preços de commodities, pressiona alimentos, afeta a geração de energia, interfere na logística, aumenta determinados riscos para seguradoras, chega à inflação, passa pelos juros e, em algum momento dessa viagem, encontra o balanço das empresas.
E aí deixa de ser apenas previsão do tempo. Vira mercado.
Talvez seja justamente essa uma das discussões mais interessantes quando falamos em ESG atualmente. Durante muito tempo, o risco climático foi tratado quase exclusivamente como uma questão ambiental. Algo importante, claro, mas frequentemente colocado naquela parte do relatório corporativo destinada à sustentabilidade, longe das páginas onde analistas e investidores procuram receita, margem, geração de caixa, riscos e perspectivas para os próximos trimestres.
Só que o clima parece não respeitar muito essa divisão de capítulos.
Uma seca prolongada não pergunta se determinada companhia possui boas metas ambientais antes de afetar sua produção. Uma enchente não consulta o relatório ESG antes de interromper uma estrada. Uma onda de calor também não espera a próxima reunião do conselho para aumentar o consumo de energia ou pressionar determinadas operações.
É justamente aí que o “E” do ESG começa a ficar bem mais interessante para o mercado.
Pense no agronegócio, talvez o exemplo mais óbvio. Alterações no regime de chuvas e na temperatura podem afetar produtividade, qualidade das culturas e preços. Mas a história não termina na fazenda. A indústria de alimentos compra essas matérias-primas. O varejo vende esses produtos. Empresas de logística precisam transportá-los. Bancos financiam produtores e companhias dessa cadeia. Seguradoras assumem parte desses riscos. E todos nós encontramos alguma consequência no supermercado.
O clima possui uma habilidade impressionante de conectar setores que, olhando apenas uma planilha, parecem completamente diferentes.
E isso levanta uma questão particularmente interessante para quem analisa empresas: até que ponto estamos conseguindo enxergar essas conexões?
Uma companhia pode não estar diretamente exposta a uma seca, enchente ou onda de calor e, ainda assim, carregar riscos climáticos relevantes em seus fornecedores, clientes, operações, custos de energia, logística ou cadeia de financiamento. Talvez exista entre diferentes setores uma espécie de correlação climática invisível. E nem sempre ela aparece com clareza nos modelos.
É claro que exposição não significa necessariamente vulnerabilidade. E essa diferença é fundamental.
Duas empresas do mesmo setor podem enfrentar exatamente o mesmo evento climático e terminar a história de formas completamente diferentes. Uma pode ter operações distribuídas geograficamente, fornecedores alternativos, seguros adequados, gestão eficiente de água, fontes distintas de energia, tecnologia, hedge e planos de continuidade. A outra pode descobrir suas fragilidades quando o problema já estiver acontecendo.
Por isso, talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Em vez de perguntar apenas se determinada companhia está exposta às mudanças climáticas, deveríamos começar a perguntar: quanto dinheiro essa empresa pode perder quando o clima sair do padrão?
Essa pergunta muda bastante a conversa.
Porque transforma sustentabilidade em risco financeiro. E risco financeiro nós sabemos onde procurar: receita, custos, margem, fluxo de caixa, dívida, investimentos e valuation.
Nesse sentido, fenômenos como o El Niño funcionam quase como um stress test involuntário das estratégias ESG das empresas. Relatórios mostram compromissos. Eventos extremos mostram capacidade de resposta.
Uma companhia pode anunciar metas ambientais ambiciosas para 2030, 2040 ou 2050. Tudo isso importa. Mas analistas e investidores também deveriam querer saber o que acontece se determinada região enfrentar uma seca severa no próximo verão. Quanto da produção está concentrada ali? Existe alternativa logística? Quanto custa interromper aquela operação? A companhia possui cobertura de seguro suficiente? Seus fornecedores enfrentam o mesmo risco? Quanto seria necessário investir para tornar aquela operação mais resiliente?
São perguntas ambientais, certamente. Mas experimente colocá-las em reais. Rapidamente elas se tornam perguntas financeiras.
E talvez seja justamente aqui que esteja um dos grandes desafios do ESG para o mercado de capitais: transformar riscos climáticos em informações que investidores e, especialmente, analistas consigam compreender, comparar e incorporar aos seus modelos.
O mercado é extremamente rápido para precificar algumas coisas. Uma empresa divulga um resultado abaixo das expectativas e sua ação pode reagir em segundos. O Banco Central muda a percepção sobre juros e imediatamente vemos movimentos nas curvas. Uma companhia revisa o guidance e dezenas de modelos são atualizados.
Mas quanto vale uma empresa estar mais preparada para eventos climáticos extremos do que seus concorrentes?
Quanto vale ter fornecedores diversificados diante de uma quebra de safra?
Qual o impacto financeiro de uma operação depender de uma disponibilidade de água que talvez não seja a mesma daqui a dez anos?
E, talvez mais importante, quanto desses riscos já está efetivamente refletido nas análises e nos preços dos ativos?
Não são perguntas simples. Talvez justamente por isso sejam tão importantes.
Existe ainda outro detalhe: quando falamos sobre risco climático, nossa tendência é imaginar algo distante. O problema é que os balanços continuam chegando a cada três meses.
O clima não é mais apenas uma variável de longo prazo.
Ele já interfere em preços, produção, seguros, infraestrutura, logística, energia e consumo. Em outras palavras, já interfere em empresas. E, se interfere nas empresas, precisa cada vez mais fazer parte das análises sobre elas.
Talvez o próximo passo do ESG no mercado financeiro, portanto, não seja criar mais uma centena de indicadores ambientais. Talvez seja fazer com que essas informações conversem melhor com aquilo que o mercado precisa analisar, projetar e precificar.
Porque, no final, talvez exista uma pergunta muito mais simples e muito mais difícil de responder:
Estamos precificando o futuro ou ainda usando o clima do passado como premissa?
A resposta pode dizer bastante sobre o futuro dela.
E talvez também sobre o futuro da própria análise de investimentos.
(*) Gustavo Mello é Colunista colaborador de Plurale. É jornalista, especialista em Marketing Digital e Gerente de Comunicação e Marketing da APIMEC Brasil. Trabalha com narrativas que unem ESG, governança e informação de qualidade, traduzidas em comunicação clara e acessível.
(*) Os artigos de opinião são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião de Plurale.










