Por Fernando Thompson, Colunista de Plurale (*)

Em 2024, 304 milhões de pessoas viviam fora dos países onde nasceram, segundo as Nações Unidas. É o maior número já registrado e corresponde a 3,7% da população mundial. Em 1990, eram aproximadamente 154 milhões. Em pouco mais de três décadas, o contingente praticamente dobrou.
Esses 304 milhões não são pessoas permanentemente “vagando pelo mundo”. São migrantes internacionais, com situações econômicas, sociais e jurídicas diferentes. Mas o número revela uma transformação histórica: uma parcela crescente da humanidade constrói sua vida fora do território onde nasceu.
É dentro desse universo que proponho observar aquilo que denomino a condição diaspórica do século XXI. A mudança não está apenas no número de pessoas que migram. Está também na maneira como uma parcela delas se relaciona com o destino escolhido. O migrante contemporâneo não possui, necessariamente, a obrigação — econômica, social ou mesmo subjetiva — de permanecer no primeiro país para o qual migrou. Se as condições mudam, esses desterrados migram novamente.
Chegar já não significa permanecer
Este tema é o objeto do meu novo projeto de doutorado aqui na Europa. Por conta disso, acabo de escrever dois livros: “1 ENTRE 304 MILHÕES: A História de um Diaspórico Brasileiro” e “A Ópera da Brazuca”. Nos dois, conto as aventuras de ser um imigrante do outro lado do Oceano Atlântico.

Livro fala sobre brasileiros que migraram para a Europa nesta década do século XXI
O que as minhas pesquisas já permitem afirmar é que as grandes migrações dos séculos XIX e XX foram marcadas, em grande medida, pela expectativa de encontrar um novo lar. Por exemplo, durante as duas grandes guerras mundiais, milhões de europeus atravessaram o Atlântico para reconstruir suas vidas nas Américas. A trajetória possuía uma geometria predominantemente linear: origem → destino.
Já o movimento migratório desta segunda década do século XXI estabelece outra configuração: origem → destino A → destino B → destino C.
O migrante contemporâneo dispõe de uma infraestrutura informacional inexistente para seus antepassados. Pelo telefone, compara salários, empregos, preços de imóveis, legislação migratória, escolas, sistemas de saúde, segurança e qualidade de vida. Também conversa instantaneamente com compatriotas espalhados por diferentes países e acompanha mudanças legislativas praticamente em tempo real. Isso reduz drasticamente o custo informacional de uma segunda migração.
Se o salário deixa de compensar, compara outros mercados. Se a habitação se torna inacessível, procura outras cidades. Se as oportunidades profissionais diminuem, pesquisa outro país. Se encontra xenofobia ou percebe mudanças legislativas que comprometem seu projeto de vida, pode considerar uma nova partida. Não precisa necessariamente voltar ao país de origem.
Ceuta: 72 mil pessoas e uma cidade de 80 mil habitantes
O que aconteceu recentemente em Ceuta, território espanhol no norte da África, mostra outra dimensão do problema. Nos dias 30 e 31 de julho de 2026, aproximadamente 72 mil pessoas entraram irregularmente em Ceuta a partir do Marrocos, segundo números confirmados pelo governo espanhol. O objetivo era acessar a Espanha através do território espanhol.
Ceuta possui cerca de 80 mil habitantes. Em apenas dois dias, portanto, atravessou sua fronteira um contingente equivalente a quase toda a população local. A tragédia também teve um enorme custo humano. Pelo menos 82 pessoas morreram do lado espanhol, enquanto outras 14 mortes foram reportadas pelo Marrocos.
As estruturas de acolhimento foram submetidas a uma enorme pressão, inclusive pelo número de menores desacompanhados. O que começou em uma fronteira entre Espanha e Marrocos rapidamente deixou de ser apenas um problema de Ceuta e passou a exigir respostas nacionais e europeias.
O episódio sintetiza uma das contradições da migração contemporânea: a fronteira é local; o fenômeno é transnacional.
Do Mediterrâneo às fronteiras brasileiras
Ceuta não constitui um acontecimento isolado. Refugiados, requerentes de asilo e outros migrantes continuam atravessando o Mediterrâneo e a rota atlântica da África Ocidental em direção, principalmente, a Itália, Grécia, Espanha, Malta e Chipre.
Segundo o ACNUR, aproximadamente 154,5 mil refugiados e migrantes chegaram à Europa em 2025 pelas rotas mediterrânicas e atlânticas monitoradas pela organização. Outras 2.950 pessoas morreram ou desapareceram.
É fundamental não misturar categorias. Refugiado não é sinônimo de migrante econômico; requerente de asilo não significa refugiado reconhecido; migração regular e irregular também são juridicamente distintas. Mas grandes concentrações de chegadas produzem uma questão comum: a capacidade de resposta dos territórios.
Quando milhares de pessoas chegam rapidamente a uma cidade, ilha ou região fronteiriça, são necessários acolhimento, identificação, assistência social, atendimento médico, habitação, educação e estruturas administrativas e de segurança. Isso não significa responsabilizar o migrante pelas deficiências dos serviços públicos. O problema é de escala e capacidade instalada.
Uma pequena cidade simplesmente pode não possuir recursos humanos, financeiros e físicos para absorver sozinha um choque populacional dessa dimensão.
Roraima: a experiência brasileira
Esse é um problema que já chegou ao Brasil. A crise venezuelana transformou Roraima em uma das principais portas de entrada migratória da América do Sul. A concentração de venezuelanos em Pacaraima e Boa Vista exigiu uma resposta que ultrapassou rapidamente a capacidade das administrações locais.
O governo federal criou, em 2018, a Operação Acolhida, articulando recepção, documentação, assistência, abrigamento e, sobretudo, interiorização. Até o fim de 2025, mais de 156 mil migrantes e refugiados venezuelanos haviam sido voluntariamente transferidos para municípios de outras regiões brasileiras. Em agosto de 2026, o Ministério da Justiça já registrava mais de 157 mil pessoas interiorizadas para mais de 1.100 municípios.
O governo federal redistribuiu a responsabilidade territorial por esses milhares de migrantes e também favoreceu a integração. Segundo o Ministério da Justiça, 77% das famílias venezuelanas interiorizadas conseguiram emprego poucas semanas depois de chegar ao município de destino.
A experiência mostra as duas faces da migração. Migrantes demandam políticas públicas, mas também trabalham, consomem, empreendem, pagam impostos e participam da economia das sociedades que os recebem.
O Brasil já havia experimentado outro importante movimento contemporâneo com a imigração haitiana, intensificada depois do terremoto de 2010. Em julho de 2026, o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), ligado ao Ministério da Justiça, publicou um estudo específico sobre as características demográficas da imigração haitiana no Brasil, particularmente na Região Sul e no Distrito Federal. Somos, portanto, simultaneamente país de origem, trânsito e destino.
Enquanto recebemos migrantes, quase 5 milhões de brasileiros estão fora.
Segundo a estimativa oficial mais recente do Itamaraty, aproximadamente 4,9 milhões de brasileiros viviam no exterior em 2023, cerca de 400 mil a mais que no ano anterior. Estados Unidos, Portugal, Paraguai, Reino Unido e Japão concentram algumas das maiores comunidades.
Mas o fenômeno que procuro compreender não é apenas porque tantos brasileiros deixam o país. É o que acontece depois da primeira migração. É nesse contexto que venho trabalhando, em meus estudos, com a hipótese de uma quarta onda da migração brasileira.
hipótese é qualitativa: uma parcela dos brasileiros que deixaram o país pode não considerar mais o primeiro destino como necessariamente definitivo. Portugal constitui um campo especialmente interessante para observar esse comportamento. Língua, vínculos históricos, redes familiares e sociais e determinadas facilidades jurídicas fizeram do país uma das principais portas de entrada dos brasileiros na Europa. Atualmente, vivem legalmente em território luso cerca de 600 mil brasileiros. Mas esse número pode chegar a um milhão se incluirmos os indocumentados e os que possuem dupla cidadania.
Contudo, o brasileiro que escolheu Portugal começa a rever sua estadia. Diante da xenofobia crescente e de novas e mais rígidas leis de migração, muitos estão cruzando a fronteira (legal e ilegalmente) rumo à Espanha. Vão em busca de melhores salários, oportunidades profissionais ou condições de vida.
Não afirmo que já esteja ocorrendo uma migração maciça de brasileiros de Portugal para a Espanha. Essa é precisamente uma das hipóteses que precisam ser investigadas empiricamente. Mas a possibilidade revela algo importante sobre o migrante contemporâneo: ele vai atrás das melhores condições.

O brasileiro diaspórico do século XXI
É esse personagem que denomino, no âmbito da minha pesquisa, de brasileiro diaspórico do século XXI. Ele mantém vínculos familiares, culturais, econômicos e digitais com o Brasil enquanto constrói relações com outros territórios. E sua mobilidade pode tornar-se adaptativa. Ele compara países. Compara salários. Compara oportunidades. Compara legislações. E compara qualidade de vida.
Esse migrante pode decidir partir novamente. Não porque seja incapaz de criar raízes, mas porque ter migrado uma vez não lhe impõe mais a obrigação de permanecer naquele território, independentemente das condições que encontrará depois. Essa possibilidade de remigração talvez seja uma das características fundamentais da condição diaspórica contemporânea.
Um fenômeno global administrado por Estados nacionais
É aqui que os diferentes pontos deste mapa se encontram: Ceuta, Lampedusa, as ilhas gregas, as Ilhas Canárias e Roraima. Nenhum desses territórios criou sozinho as circunstâncias que levaram milhares de pessoas às suas fronteiras.
Guerras produzem refugiados. Crises políticas e econômicas provocam deslocamentos. Diferenças salariais atraem trabalhadores. Mudanças climáticas podem ampliar movimentos populacionais. Redes digitais revelam oportunidades em outros países. E mudanças legislativas podem fazer quem já migrou decidir migrar novamente.
A fronteira onde o migrante chega é apenas uma etapa de um processo que frequentemente começou milhares de quilômetros antes. Por isso, os 304 milhões registrados pela ONU não devem ser interpretados como uma única “crise migratória”. Muitos não atravessam clandestinamente fronteiras, nem chegam à Europa em embarcações precárias. Milhões trabalham regularmente, estudam, criam empresas e famílias e estão integrados às sociedades onde vivem. Continuar tratando um fenômeno dessa dimensão exclusivamente como um problema interno de cada país começa a revelar seus limites.
Da fronteira à responsabilidade compartilhada
A União Europeia já reconheceu parcialmente essa realidade. O novo Pacto sobre Migração e Asilo, em aplicação desde junho de 2026, estabelece mecanismos de solidariedade para que países submetidos a pressões migratórias desproporcionais não precisem enfrentá-las isoladamente. A experiência brasileira com a interiorização dos venezuelanos segue, em escala nacional, uma lógica semelhante. Ceuta não pode resolver sozinha Ceuta. Roraima não poderia resolver sozinho o fluxo venezuelano. Uma ilha grega não pode responder isoladamente por movimentos populacionais que atravessam continentes.
Isso não significa defender fronteiras abertas nem retirar dos Estados o direito de estabelecer suas políticas migratórias. Significa reconhecer que soberania e cooperação internacional não são incompatíveis.
Uma governança contemporânea da mobilidade precisa envolver países de origem, trânsito e destino, além de discutir vias regulares de migração, integração, reconhecimento de qualificações, trabalho, habitação, educação, saúde, combate ao tráfico de pessoas e mecanismos de financiamento e responsabilidade compartilhada. E o governo do Brasil não pode deixar de se envolver nessa questão.
A dimensão da diáspora brasileira ganhou contornos que desafiam a própria geografia demográfica e socioeconômica do país. Ao alcançar a marca estimada de cerca de 5 milhões de pessoas vivendo fora das fronteiras nacionais, a comunidade de brasileiros no exterior consolidou um peso populacional que superaria 15 unidades da federação — posicionando-se como o 13º "estado" mais populoso do Brasil, à frente de Paraíba, Amazonas e Espírito Santo. No recorte municipal, esse contingente ultrapassa a população de 5.568 cidades brasileiras, ficando atrás unicamente das metrópoles de São Paulo e Rio de Janeiro. Não se trata apenas de uma estatística dispersa pelo globo, mas de uma verdadeira potência demográfica viva que redefine o alcance da cidadania brasileira além-fronteiras.
Sob as lentes do desenvolvimento sustentável, da governança e da inclusão, esses números impõem um debate urgente sobre políticas públicas, representatividade e integração social. Longe de representar um mero fluxo de evasão, essa expressiva massa populacional atua como um vetor estratégico de remessas financeiras, intercâmbio cultural e inovação, ao mesmo tempo em que enfrenta vulnerabilidades concretas de inserção profissional, acolhimento e direitos cívicos nos países de destino. Reconhecer a magnitude desse "Brasil extraterritorial" é o primeiro passo para estruturar pontes institucionais e digitais sólidas, garantindo que o capital humano e as demandas dessa população sejam integrados de forma sustentável à agenda de futuro do país.
Essa falta de integração entre países gera o risco de que nações endureçam isoladamente suas regras, enquanto migrantes procuram novas rotas e novos destinos. É justamente aí que a governança global encontra a condição diaspórica do século XXI. As políticas migratórias não administram mais apenas quem entra; precisam compreender também quem permanece, quem se integra e quem decide partir novamente.
No meu livro, transformei a estatística global em uma unidade humana: “1 entre 304 milhões”. Na pesquisa, procuro compreender o que acontece quando esse indivíduo percebe que a primeira fronteira atravessada não precisa ser a última. Entre partir, chegar, permanecer e partir novamente, emerge o migrante diaspórico do século XXI.
E Ceuta, Mediterrâneo, Roraima e a diáspora brasileira apontam para a mesma conclusão: o tema da migração diaspórica do século XXI deve ser tratado de forma transnacional.
Fontes
- ONU/UNDESA — International Migrant Stock 2024. Dados globais sobre os 304 milhões de migrantes internacionais e evolução desde 1990.
- ACNUR — Europe Sea Arrivals. Dados sobre chegadas, mortes e desaparecimentos nas rotas mediterrânicas e atlânticas em direção à Europa.
- Governo da Espanha / EFE — Ceuta, julho de 2026. Dados sobre aproximadamente 72 mil entradas nos dias 30 e 31 de julho.
- Ministério da Justiça e Segurança Pública — Operação Acolhida, 2026. Dados sobre interiorização e integração de venezuelanos no Brasil.
- OBMigra — Observatório das Migrações Internacionais, 2026. Estudos e dados sobre imigração venezuelana e haitiana no Brasil.
- Ministério das Relações Exteriores — Comunidades Brasileiras no Exterior. Estimativa de aproximadamente 4,9 milhões de brasileiros residentes fora do país.
- Comissão Europeia — Pacto sobre Migração e Asilo. Regras europeias em aplicação desde junho de 2026 e mecanismos de solidariedade e responsabilidade compartilhada.
(*) Os artigos de opinião são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião de Plurale.










