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Com mais de 80 obras de 21 artistas, a exposição “Amazônicas: Poéticas femininas”, no CCBB - Rio de Janeiro, revela a diversidade da produção artística de mulheres do Norte do país, apresentando a Amazônia como território de criação, memória, resistência e ancestralidade
POR RENATA MONDELO, ESPECIAL PARA PLURALE

A Amazônia costuma ser descrita como o pulmão ou o coração do planeta. Na exposição “Amazônicas: Poéticas femininas”, ela ganha outra dimensão simbólica: a de ventre. Um território que gera vida, culturas, histórias e uma produção artística potente, construída por mulheres de diferentes origens, identidades e gerações.
Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, a mostra reúne mais de 80 obras de 21 artistas do Pará, Acre e Amazonas. Com direção artística e curadoria de Sissa Aneleh, a exposição percorre diferentes períodos e linguagens, como pintura, gravura, fotografia, escultura, grafite, performance, vídeo e instalações.
O uso da forma plural, que está presente no título, traduz a diversidade das mulheres que formam esse território. “Temos mulheres cis, trans, indígenas aldeadas e indígenas da retomada. São artistas de diferentes gerações, identidades e trajetórias”, explica a curadora.
O ponto de encontro entre trabalhos tão diversos é a presença feminina. Ela aparece não só nos corpos, retratos e narrativas. Indo além, a mostra alcança também as memórias familiares, as experiências pessoais, as referências ancestrais e a relação das artistas com seus territórios.
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Pioneiras de ontem e de hoje
A exposição estabelece um diálogo entre as obras produzidas a partir da década de 1970 e vários trabalhos contemporâneos. Ao aproximar diferentes gerações, são reveladas muitas questões consideradas atuais que já se mostravam presentes na produção das artistas pioneiras.
“Elas já tratavam do universo feminino e voltavam o olhar para o próprio território. Quando pesquisamos essas obras, percebemos como essas mulheres eram contemporâneas e estavam à frente de seu tempo”, afirma Sissa.
A curadora também chama a atenção para um apagamento histórico. Embora homens e mulheres tenham participado da construção da cena artística amazônica, o reconhecimento não aconteceu da mesma forma. Muitos homens foram consagrados como pioneiros, enquanto mulheres que produziam no mesmo período, com igual qualidade e capacidade de inovação, só receberam reconhecimento décadas depois.
Ao reunir essas produções, a exposição nos permite reconstruir capítulo ainda pouco conhecido da história da arte brasileira. “As mulheres ajudaram a construir o cenário artístico e cultural da Amazônia. Elas nunca deixaram de produzir. Foram silenciadas, mas estavam presentes”, ressalta.
A definição da Amazônia como “o verdadeiro ventre do Brasil e do mundo” sintetiza uma das ideias centrais da mostra. O ventre surge como metáfora de criação, fertilidade, continuidade e transformação, ultrapassando a dimensão biológica. Ele se manifesta em homenagem às mães, avós e ancestrais, como referência aos povos originários e aos saberes transmitidos por gerações.
A exposição também revisita narrativas anteriores à colonização, como a das Icamiabas, mulheres indígenas guerreiras que teriam defendido seu território contra invasores europeus. Chamadas de “amazonas”, a partir de associação com a mitologia grega, elas tiveram sua denominação e sua identidade originais apagadas. Recuperar essa história é reconhecer que as mulheres indígenas já exerciam protagonismo e defendiam seu território, bem antes mesmo de o Brasil existir como país.
Muito além da floresta
“Amazônicas” confronta ainda uma visão limitada da região, muitas vezes apresentada apenas a partir do desmatamento, da exploração de recursos naturais e dos conflitos ambientais. “A Amazônia não é um território vazio ou isolado. Existe uma presença humana muito forte, uma produção cultural antiga e áreas de conhecimento profundamente desenvolvidas”, afirma Sissa.
Embora o destaque conquistado pela região seja relevante, em razão dos atuais debates climáticos, ele pode transmitir a falsa impressão de que essa produção artística surgiu recentemente. A arte amazônica não começou agora porque a Amazônia entrou em evidência. Essas mulheres sempre produziram, independentemente de serem ou não reconhecidas pelo restante do país.
Nesse contexto, a criação artística também se torna uma forma de proteger o território. Ao contar suas próprias histórias e preservar referências culturais, as artistas resistem a narrativas externas e evitam que suas identidades sejam diluídas.
“A defesa de um território não acontece somente por meio de leis ou ações institucionais. A defesa artística e cultural também é muito potente. Quando as pessoas criam um afeto positivo por determinado lugar, passam a se interessar, estudar e defender aquele território”, comenta Sissa.
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Arte para sentir e experimentar
Além das obras distribuídas pelo espaço expositivo, “Amazônicas” propõe experiências sensoriais e tecnológicas. Uma das esculturas pode ser tocada e produz sons que remetem, de acordo com a percepção de cada visitante, a cachoeiras, ao mar ou aos rios amazônicos.
A mostra conta ainda com um ambiente tridimensional em 360 graus, acessado por meio de óculos de realidade virtual, e com o filme imersivo “Curandeira”, inspirado em um ritual de cura conduzido por uma mulher Guajajara. As tecnologias convivem com referências ancestrais e ajudam a romper a ideia de que uma exposição deve se limitar a quadros nas paredes e obras intocáveis.
A iniciativa também se desdobra em ações educativas e de formação profissional. O programa A Voz das Mulheres, desenvolvido pelo Museu das Mulheres, promove oficinas voltadas para a economia criativa e oferece estágio remunerado a mulheres em situação de vulnerabilidade, com experiências em produção executiva e atividades técnicas. Sissa espera que, ao final da visita, o público compreenda que a Amazônia está viva, é profundamente feminina e possui uma história cultural que precisa ser conhecida e valorizada.
Mais do que lançar luz sobre um conjunto de artistas, “Amazônicas: Poéticas femininas” convida o público a rever referências, preencher lacunas históricas e criar uma relação mais próxima com o território. Um capítulo da história da arte brasileira que ainda está sendo contado e, no qual, as mulheres amazônicas são as grandes protagonistas.
Sobre a curadora: Sissa Aneleh é fundadora e diretora do Museu das Mulheres, Mestra e Doutora em Artes, historiadora de arte, diretora artística, curadora e produtora executiva. Possui pesquisas voltadas para história da arte, mulheres artistas, cinema autoral feminino e poéticas curatoriais.










