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A ‘nova economia: já sumiram milhares de empregos ao redor do Mundo

Por Fernando Thompson, Colunista Colaborador de Plurale (*)

A chamada “nova economia” nasceu cercada por promessas de eficiência, descentralização, inovação e conexão. Plataformas digitais seriam capazes de reduzir custos, aproximar consumidores e fornecedores e criar mercados antes inexistentes. Pouco mais de duas décadas depois, porém, começam a ficar evidentes também os custos sociais, urbanos e trabalhistas desse modelo.

Não significa necessariamente que a economia digital esteja chegando ao fim. O que parece estar em crise é a ideia de que plataformas tecnológicas poderiam crescer a produtividade e gerar empregos, indefinidamente, com pouca regulação e transferindo parte relevante de seus custos para trabalhadores, cidades e sociedade.

O fenômeno foi analisado por Nick Srnicek em Platform Capitalism, ao discutir a transformação das plataformas em infraestruturas centrais da economia contemporânea. Em outra perspectiva, Shoshana Zuboff mostrou, em The Age of Surveillance Capitalism, como a extração e o tratamento massivo de dados comportamentais se converteram em fonte de poder econômico. Hoje, os limites desse modelo aparecem em diferentes setores.

Airbnb e a reação das cidades

Barcelona tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos. A expansão dos alojamentos turísticos de curta duração ocorreu paralelamente a uma grave crise habitacional. Segundo dados divulgados pelo próprio governo espanhol ao anunciar novas medidas para o setor, os preços dos aluguéis na cidade cresceram cerca de 68% em uma década, enquanto a renda da população avançou aproximadamente 38%.

Em 2024, a prefeitura de Barcelona anunciou que pretende não renovar as licenças de aproximadamente 10 mil apartamentos turísticos, eliminando essa modalidade até o final de 2028.

É uma mudança importante de paradigma.

O modelo inicialmente apresentado como uma forma de permitir ao turista “viver como um morador local” passou a ser questionado justamente por seus efeitos sobre quem efetivamente mora nas cidades. Se e quando isso se espalhar para outras cidades, milhares de pessoas que investiram em imóveis para fazer dinheiro rápido com o Airbnb, vão perder muito dinheiro.

Seria simplificador atribuir a crise habitacional exclusivamente ao Airbnb ou às plataformas de alojamento. Oferta insuficiente de imóveis, especulação imobiliária, turismo de massa, juros, políticas urbanísticas e crescimento populacional também interferem nos preços.

Mas Barcelona sinaliza algo maior: diante do conflito entre expansão irrestrita do mercado digital e direito à habitação, governos começam a impor limites às plataformas.

Delivery e o custo urbano invisível

No Brasil, outro componente da economia de plataforma evidencia contradições semelhantes.

Empresas como iFood e Uber Eats transformaram hábitos de consumo e criaram uma gigantesca infraestrutura de entrega. A conveniência para o consumidor, entretanto, trouxe consigo discussões sobre remuneração, proteção social e condições de trabalho dos entregadores.

Há ainda um problema menos visível: as chamadas dark kitchens _ cozinhas destinadas prioritariamente à produção de alimentos para aplicativos de entrega, muitas vezes sem atendimento presencial ao consumidor e que geram transtornos em áreas residenciais, sem preparo para a alta movimentação de veículos e entregadores. O modelo pode aumentar eficiência e reduzir custos, mas sua rápida expansão criou conflitos urbanos.

Quando grandes estruturas de produção e distribuição são instaladas em áreas residenciais sem planejamento adequado, podem surgir problemas de trânsito, circulação intensa de motocicletas, ruído, resíduos, segurança alimentar e compatibilidade com o zoneamento urbano.

O problema, novamente, não está necessariamente na tecnologia. Está na velocidade com que novos modelos empresariais conseguem ocupar espaços que a legislação e as estruturas tradicionais de fiscalização demoraram a compreender.

Big Techs: do crescimento permanente às demissões

Talvez o sinal mais simbólico dessa transformação esteja dentro das próprias empresas que construíram a nova economia.

Durante anos, trabalhar em uma Big Tech (Amazon, Google, Meta, Microsoft, entre outras), significava ingressar em um dos setores mais valorizados da economia mundial. Salários elevados, benefícios generosos, escritórios sofisticados e crescimento acelerado ajudaram a construir a imagem de uma indústria praticamente imune às crises tradicionais. Essa promessa sofreu um choque.

Desde 2022, centenas de milhares de trabalhadores do setor tecnológico foram demitidos em sucessivas ondas de cortes. Levantamentos mantidos pelo Layoffs.fyi registram demissões em larga escala nas empresas da nova economia.

O movimento possui várias explicações: contratações excessivas durante a pandemia, aumento dos juros, pressão de investidores por rentabilidade, reorganizações empresariais e, mais recentemente, a adoção crescente da Inteligência Artificial.

A consequência é relevante porque a vulnerabilidade associada à economia digital deixou de atingir apenas trabalhadores das plataformas.

Ela chegou também aos engenheiros, programadores, designers, profissionais de marketing e executivos que ajudaram a construir essas empresas.

A precariedade digital ganhou novos andares.

Quando o produto é também o comportamento

Existe ainda outra dimensão dessa crise.

Byung-Chul Han, em Infocracia, analisa como a digitalização altera as relações entre informação, poder e democracia. Christian Fuchs, a partir da Economia Política da Comunicação, examina criticamente as estruturas de poder e exploração presentes nas plataformas digitais.

Essas perspectivas ajudam a compreender uma característica fundamental da economia de plataformas: muitas empresas não comercializam apenas serviços. Elas transformam atenção, interação e dados comportamentais em ativos econômicos.

Nesse ambiente, conteúdos capazes de gerar reação intensa podem receber vantagens competitivas na disputa pela atenção.

O problema deixa então de ser exclusivamente econômico. Passa a envolver democracia, privacidade, saúde do espaço informacional e concentração de poder.

A Inteligência Artificial não é uma tábua de salvação

Agora, uma nova promessa tecnológica ocupa o lugar que anteriormente pertenceu às plataformas: a Inteligência Artificial.

A narrativa é conhecida. Uma nova tecnologia surge prometendo solucionar ineficiências produzidas pelo modelo anterior.

Evgeny Morozov definiu esse impulso como “solucionismo tecnológico”: a tendência de tratar problemas políticos, econômicos e sociais complexos como questões que poderiam ser resolvidas prioritariamente por tecnologia.

A IA certamente produzirá ganhos extraordinários de produtividade e poderá criar novas atividades econômicas. Mas não existe evidência de que, isoladamente, consiga solucionar problemas como desigualdade, precarização do trabalho, crise habitacional ou concentração econômica.

Existe inclusive o risco inverso.

Quando incorporada às mesmas estruturas empresariais que privilegiam redução de custos e maximização de retorno, a IA pode ampliar a capacidade de automatização e aumentar a pressão sobre determinadas categorias profissionais.

A questão relevante, portanto, talvez não seja perguntar se a Inteligência Artificial substituirá trabalhadores.

É perguntar quem ficará com os ganhos de produtividade produzidos por ela.

A crise da chamada “nova economia” também se tornou visível no mercado de trabalho. O imaginário construído durante duas décadas em torno das Big Techs — empresas capazes de crescer continuamente, oferecer empregos altamente qualificados e transformar conhecimento em prosperidade — passou a conviver com ciclos sucessivos de demissões em massa. Um levantamento baseado em registros públicos de cortes no setor tecnológico identificou 122.606 demissões em 2025 e outras 129.488 entre janeiro e 3 de setembro de 2026: 252.094 postos de trabalho eliminados ou anunciados em menos de dois anos, envolvendo 348 empresas em 25 países e regiões. Como a base contabiliza apenas episódios com número de trabalhadores publicamente informado, o total real pode ser maior.

Os números revelam uma contradição importante do capitalismo digital contemporâneo. Empresas que continuam investindo dezenas de bilhões de dólares em inteligência artificial, infraestrutura de dados, automação e computação em nuvem simultaneamente reduzem estruturas administrativas, comprimem níveis hierárquicos e descartam parte do capital humano que ajudou a construir seu crescimento. Isso não significa que a inteligência artificial seja a causa exclusiva de todas as demissões: reestruturações, excesso de contratações durante a pandemia, pressão por margens, competição e mudanças de estratégia também aparecem entre as justificativas empresariais. Mas Microsoft, Meta, Amazon, Oracle e outras gigantes vêm promovendo cortes justamente enquanto ampliam os investimentos em IA. Na Uber, por exemplo, aproximadamente 3.300 trabalhadores — cerca de 10% do quadro — foram atingidos em setembro de 2026, na maior rodada de demissões da empresa desde a pandemia. A vulnerabilidade, portanto, deixou de atingir apenas entregadores, motoristas e trabalhadores precarizados das plataformas: alcançou engenheiros, programadores, gestores e outros profissionais altamente qualificados do próprio núcleo da economia digital.

Empresa

Demissões/cortes registrados

Período e dimensão

Amazon

mais de 31 mil

Entre 2025 e setembro de 2026; inclui uma rodada de 14 mil em 2025 e mais de 17 mil cortes registrados em 2026.

Intel

27.058

Total registrado em 2025; foi a empresa com maior número de cortes naquele ano.

Oracle

21.000

Grande rodada registrada em junho de 2026.

Microsoft

cerca de 19.800

Aproximadamente 15 mil em duas grandes rodadas de 2025 — 6 mil e 9 mil — e outras 4.800 posições anunciadas em 2026.

Meta

mais de 14 mil

Cerca de 3.600 na rodada de fevereiro de 2025 e mais de 10 mil cortes registrados em 2026.

Dell

11.000

Corte registrado em março de 2026.

Salesforce

4.000

Grande rodada registrada em 2025, além de outros ajustes de pessoal.

Uber

3.300

Anunciados em setembro de 2026, equivalentes a aproximadamente 10% dos empregados.

Fontes: Layoffs.fyi, Tech Layoff Tracker e Reuters. Os números referem-se a demissões anunciadas, reportadas ou verificadas publicamente e não representam necessariamente perda líquida de empregos de cada companhia.

O “S” do ESG diante da transição digital

Esse debate atinge diretamente a agenda ESG.

Tenho abordado nesta Plurale a necessidade de observar com mais atenção o componente social da sustentabilidade empresarial, muitas fazes confundida com o greenwashing (publicidade). A transformação tecnológica torna essa discussão ainda mais urgente.

Se empresas conseguem aumentar produtividade com menos trabalhadores, governos, corporações e sociedade terão de enfrentar uma questão que não pode ser resolvida apenas pelos departamentos de tecnologia.

O que acontecerá com os profissionais deslocados?

A questão alcança desde o entregador submetido aos mecanismos de gestão algorítmica até o desenvolvedor altamente qualificado atingido por uma reestruturação de uma Big Tech.

Isso exige políticas de requalificação profissional, proteção social compatível com novas modalidades de trabalho, educação continuada e mecanismos capazes de distribuir de maneira menos assimétrica os ganhos de produtividade.

Em outras palavras, a transformação digital também precisará de uma transição justa. E de governantes e Instituições da Sociedade Civil mais preparados.

O conceito, tradicionalmente associado à passagem para uma economia de baixo carbono, pode ser igualmente útil para pensar a transformação tecnológica: inovar sem simplesmente transferir os custos da inovação para trabalhadores e comunidades.

O fim do laissez-faire digital

Airbnb, aplicativos de entrega, dark kitchens, redes sociais, Big Techs e Inteligência Artificial parecem fenômenos diferentes.

Mas existe um elemento que os conecta a todos.

Durante aproximadamente duas décadas, grande parte da economia digital cresceu mais rapidamente do que a capacidade dos Estados de regulá-la. Primeiro surgia a inovação. Depois apareciam os efeitos colaterais. Somente então começava a discussão sobre regras.

Esse ciclo está mudando.

Cidades regulam plataformas de alojamento. Governos discutem direitos de trabalhadores de aplicativos. União Europeia e outros mercados ampliam a regulação sobre plataformas e Inteligência Artificial. Autoridades de concorrência questionam a concentração das Big Techs.

Não estamos necessariamente assistindo ao colapso da economia digital.

Estamos provavelmente diante do esgotamento de sua primeira arquitetura institucional: crescimento acelerado, concentração econômica e regulação tardia.

Esse talvez seja o verdadeiro significado da crise precoce do capitalismo digital.

A tecnologia continuará avançando. As plataformas também não desaparecerão. O que está sendo colocado em discussão é algo mais profundo: quais limites sociedades democráticas pretendem impor ao poder econômico e algorítmico dessas infraestruturas.

A inovação não pode ser medida apenas pela capacidade de produzir mais, mais rápido e com menos trabalhadores.

No século XXI, será preciso acrescentar outra variável à equação: para quem a inovação produz valor — e quem pagará a conta, quando ela produz custos sociais.

(*) Os artigos de opinião são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião de Plurale.







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