POR MAURETTE BRANDT, COLUNISTA DE PLURALE

O Brasil não teve a sorte de conhecer todo o talento, o carisma e a qualidade musical impecável de um dos maiores gênios da música contemporânea de seu país: o cantor, compositor e músico português Jorge Palma. Ontem à noite, em Lisboa,uma parada cardiorrespiratória levou este artista único para algum um lugar que, espero, seja cercado de música, arte e beleza.
Ainda não sei se terei repertório capaz de transmitir tudo que Jorge Palma representa a quem não conheceu seu absurdo talento musical, sua criatividade permanente e sua capacidade de fazer amigos para sempre, como aconteceu comigo.
Em 2007, recém-aposentada, recebi de um amigo algumas músicas portuguesas do momento. E uma voz, em minutos, me conquistou. Perguntei quem era e meu amigo respondeu: Jorge Palma. Logo partir para encontrá-lo, musicalmente, com as ferramentas da época. Foi assim que mergulhei num universo que, logo percebi, me fazia falta desde a adolescência – assim como me fariam falta Chico, Caetano, Ivan Lins, por exemplo.
Foi como atravessar um portal inacreditável. Procura daqui, fuça dali, acabei conhecendo uma turma incrível que o chamava de Mestre. Graças a esses fãs quase devotos, fui parar em Portugal, quase que unicamente para conhecer Jorge Palma e sua música absolutamente necessária.

Foto de Cris Huertas/ Arquivo Pessoal.
Meu primeiro show foi na cidade de Santa Maria da Feira, guiada pelo novo amigo – e também devoto Tiago Branco - que, algum tempo depois, passaria a integrar a equipe do artista. Naquela sala mediana, de excelente acústica e sentada na primeira fila, comecei a compreender como e porque a música de Jorge Palma era, de fato, indispensável.
A segunda parada foi num concerto em Coimbra, a que fui com a amiga portuguesa Cris Huertas, quando Jorge e eu conversamos e iniciamos uma bela amizade. Artista muito aberto, inteligente e talvez curioso em saber quem era aquela maluca que atravessou tanto mar para conhecê-lo, abriu-me todas as portas. Poucos dias depois recebeu-me em casa, ao lado de uma gata mansinha e de seu imenso piano branco. Confidenciou-me que, uma vez sentado ao lado de Chico Buarque numa emissora de tv, não teve coragem de puxar conversa, de tão nervoso que estava. Em seguida fomos encontrar a Rita, sua esposa e companheira – uma atriz incrível, leve, alegre e acolhedora – e alguns amigos. Pronto, fui aceita e aprovada. Na época, Jorge parou a impressão de um livro que estava lançando só para incluir um depoimento meu. Imagina o meu nervoso pra liberar aquele texto? Que baita responsabilidade!
Ah, mas aproveitei meu tempo com o novo amigo. Estive em todos os concertos que fez no período, conheci os filhos Vicente e Francisco – hoje grandes músicos também -, interagi com os músicos da banda – enfim, foi uma alegria sem par. Um belo dia me chamou para um jantar no Chapitô, um restaurante divino, ao ar livre, de onde se via toda Lisboa. Lá estavam o Jorge, a Rita e trocentos amigos que foram muito receptivos.
Nesta divina aventura, hospedei-me na casa da amiga e coetânea Vera Matagueira, que se mudara para Portugal há anos, logo depois que nos formamos na querida FACHA – e que hoje é editora da revista OXIGÊNIO.
Pensei muito, naqueles dias portugueses, em como seria formidável trazer o Jorge Palma para cantar no Brasil. Afinal, eu estava diante de um fluxo permanente de criatividade, beleza musical, um talento extraordinário. Sem dúvida seria incrível!
Tentei, tentei, jamais tentei tão forte assim - mas não consegui.
Na volta da primeira viagem, entrei em contato com os irmãos do Jorge. Todos moravam no Brasil; dois eram portugueses e dois brasileiros. Aí foi que a família se reencontrou, falando por telefone, pela internet e em encontros na terrinha.
Em 2009, voltei a Portugal e, naturalmente, estivemos todos juntos outra vez. Isso sem falar nos concertos, sempre empolgantes e cheios de uma energia muito particular, que se aprofundava em todos os ritmos possíveis - desde o rock mais quente até mesmo a um ou outro sambinha. Jorge Palma compunha com tantas facetas e cores que seria arriscado atribuir à sua obra um único estilo. Convido todo mundo a descobrir esse tesouro musical imenso na internet.
Anos depois, Jorge e Rita vieram ao Rio, numa viagem de férias. Desfilaram na Mangueira, cortaram a cidade nas bicicletas do Itaú, curtiram a família e deixaram saudade, muita saudade. No último dia 4 de junho, seu aniversário, mandei mensagem para o Facebook da Rita, pois Jorge não tinha nada a ver com redes sociais.
Ontem à noite, veio a triste notícia. Até então, sempre acreditei que poderia, algum dia, repetir os concertos, inclusive um lindo que vinha fazendo com os filhos Vicente e Francisco, além da banda, cujo título era o máximo: “Três Palmas na Palma da Mão”. Achei a ideia encantadora.
Hoje, Portugal está de luto e eu também, assim como os seguidores do Mestre e os incontáveis admiradores e amigos do artista. É uma despedida que dói demais. Ainda assim, agradeço pela grande amizade do Jorge e de sua família. Agradeço pela música e pelo encanto. Vou deixar aqui duas estrofes da pena do Jorge que, tenho certeza, Portugal inteiro está repetindo neste momento: “Enquanto houver estrada pra andar/a gente vai continuar; enquanto houver estrada pra andar;/ enquanto houver ventos e mar/a gente não vai parar;/enquanto houver ventos e mar.”
Até a próxima, grande, grandíssimo Jorge Palma!
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