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Casos e Causos

A última entrevista de Sérgio Vieira de Mello: sua luta continua cinco anos depois do atentado

Plurale republica a última entrevista de Vieira de Mello, dada poucos dias antes do atentado em Bagdá, onde cumpria missão como Alto Comissário da ONU

19/08/09

Plurale republica hoje a última entrevista de Vieira de Mello, dada à editora Sônia Araripe poucos dias antes do atentado em Bagdá, onde cumpria missão como Alto Comissário da ONU

"Os iraquianos voltaram a viver"
(Publicada originalmente no Jornal do Brasil, no dia 17 de agosto de 2003)


Vieira de Mello, comissário da ONU, acredita que país árabe começará a voltar ao normal em 2004 e defende ação de aliados
Sônia Araripe
De tédio, Sérgio Vieira de Mello não pode se queixar. Sua vida tem sido uma eterna montanha-russa, com oscilações agudas e emocionantes. Nos últimos 10 anos, este alto comissário da Organização das Nações Unidas (ONU) para Direitos Humanos esteve praticamente em todas as principais áreas de conflito do planeta. Acompanhou a guerra da Bósnia em 1993, foi à Iugoslávia em 1994, ao Kosovo em 1999, ao Timor Leste logo em seguida até 2002. E este é o ano de Bagdá.

- Não posso me queixar. Gosto do que faço. Acho que tenho uma missão no mundo - resume o carioca de 55 anos anos em entrevista de uma hora exclusiva ao Jornal do Brasil, por telefone, da capital iraquiana na última quinta-feira.
Como vive em meio ao perigo, confessa que adota cautelas. Evita, por exemplo, andar sozinho nas ruas de Bagdá e, como bom brasileiro, sempre bate na madeira três vezes. Acredita que tem menos chances de ser atingido por um motivo simples.

- Não dizemos que Deus é brasileiro? Tenho certeza de que ele me protege.

Quem espera encontrar um homem envaidecido dos próprios feitos, fica encantado com o charme de excelente contador de histórias. De uma simplicidade desconcertante, o filho de embaixador conhece o mundo como a palma da mão. Viajou desde que completou 21 dias de nascido. Não se sente frustrado por não ter seguido a carreira de embaixador.

- Não fiz prova para o Itamaraty por um motivo forte. Cassaram meu pai em 1969. Não faria sentido seguir essa carreira.
Talvez por isso deteste ser confundido com um embaixador. ''Sou o Vieira de Mello'', insiste, contando que normalmente, em ambientes formais, costuma ser reverenciado apenas com um ''Sir'' antecedendo o sobrenome. Pensou em estudar Química, acabou se formando em Filosofia. Mas é especialista na arte de negociar. Foi o que acabou por levá-lo, mesmo sem passagem pelo Instituto Rio Branco, à carreira diplomática na vida real. Ele é funcionário de carreira da ONU desde 1969.

Como lidar e intermediar a paz com facínoras e homens do bem? Vieira de Mello defende o papel das Nações Unidas como parceiro indispensável no processo de estabilização, de pacificação de uma sociedade que está emergindo de um conflito ou de uma crise.

- O importante em nosso trabalho, o essencial para ser considerado um verdadeiro parceiro, independente e imparcial, é justamente estar aberto ao diálogo com o leque completo da sociedade. Inclusive daquelas forças do mal. É nesse diálogo que vamos nos transformando em uma espécie de ponte, de elo, de laço.
No caso do Timor Leste, foi isso que o brasileiro conseguiu. Saiu de lá tão aplaudido que, de volta a Genebra, mal refeito dos tiroteios e ações terroristas, era novamente indicado, desta vez para uma missão ainda mais desafiadora: ajudar na reconstrução do Iraque.

- É um trabalho de andar para frente e para trás, todos os dias. Há sabotagens nas obras que estão sendo feitas na rede elétrica e em todo o país. Bagdá ainda é um lugar muito perigoso. Ninguém passeia aqui. Há assaltos e crimes.

Basta lembrar, registra o alto comissário, que, antes de cair, Saddam Hussein soltou cerca de 30 mil prisioneiros.

Vieira de Mello ressalta que não tem bola de cristal, mas prevê que em 2004 (quando já estiver retornado à rotina de trabalho em Genebra) será possível esperar a volta de eleições e o começo da vida voltando a pulsar em um ritmo mais normal para os iraquianos. O custo pode ser em torno de US$ 20 a 25 bilhões por ano nesta reconstrução.
A ação militar das Forças Aliadas no Iraque se justificou, opina o alto comissário da ONU para Direitos Humanos.

- Não encontramos armas de destruição em massa. Mas encontramos muitos corpos em valas comuns. Temos confirmações e provas de violação em massa dos Direitos Humanos. Isso é suficiente. Os iraquianos voltaram a viver."
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Calor sufoca e violência assusta

Preocupado com a forma física, Vieira de Mello procura levar uma vida relativamente normal mesmo no epicentro da Bagdá destroçada pela guerra. Sempre que pode, deixa o escritório da ONU no centro da capital iraquiana e faz cooper no fim do dia, para aliviar tensões.

- Faz um calor de 54 graus. É insuportável - conta.
É só um exemplo que ilustra como é a vida hoje na outrora riquíssima metrópole árabe. Ele não gosta da expressão caos para definir a situação atual. Durante a guerra foi pior, conta, com seu cacoete de ver o mundo pelo lado melhor. Naquela época, além dos bombardeios, faltou luz, gasolina, água, etc.

Como as empresas iraquianas eram quase todas estatais, o pós-guerra tem sido traumático.

- Vai se levar muito tempo para privatizar essas companhias e atrair investidores para esses setores básicos - prevê o comissário da ONU.

Os caminhões de lixo voltaram a circular com regularidade na capital, mas ainda não há cobrança dos serviços básicos. A segurança nas cidades é um item que preocupa muito os envolvidos na missão de recuperar a cidadania dos iraquianos.
- Há assaltos mesmo durante o dia e assassinatos em diferentes pontos. Mas está muito longe do clima de terror de antes. Acredito que, aos poucos, estamos restabelecendo a ordem no país.

Há regiões mais dramáticas, como Mossul, no Sul do país. É para lá que o carioca segue esta semana, a caminho de persistentes focos de guerra.

Sempre, é claro, rezando para Deus não esquecer o filho ilustre.(Por Sônia Araripe)
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Missão é resgatar democracia
Se a diplomacia está no sangue do filho do embaixador, a metodologia política foi aperfeiçoada ao longo da vida. Vieira de Mello aprendeu a ouvir e a procurar um denominador comum para lados que mal se sentam à mesma mesa.

- É uma forma de aplicar a filosofia ao trabalho que fazemos, de promoção da compreensão, da tolerância, da paz e da segurança. Não é filosófico?
Por mais que pareça simples, não costuma ser tarefa fácil. No caso do Timor, por exemplo, havia avanços e muitos recuos. A guerrilha não dava trégua. Casado, pai de dois filhos, que vivem em Genebra, longe da área de conflito administrada pelo pai abnegado, o perigo não assusta o comissário. O inglês perfeito e a cara de estrangeiro poderiam indicar que se trata de um legítimo gringo. O carioca comemora que nunca sofreu um atentado.

- Tenho duas garantias, dois coletes à prova de bala, digamos assim. Deus é brasileiro e procuro estabelecer boas relações com todas as partes envolvidas no conflito.

O trabalho de negociador no Iraque inclui ouvir e convencer todos os lados a participar da reconstrução do país e do resgate da democracia. Na última quinta-feira, por exemplo, Vieira de Mello desempenhava no escritório uma missão importante. Eram advogados da Liga Árabe, uma espécie de OAB dos países daquela região. O alto-comissário da ONU procurava o apoio do grupo para preparar a Constituição, o novo Congresso, as novas eleições.
- Não é fácil. Mas acho que temos conseguido conquistar aliados. E o importante é que seja um processo que parta deles, dos próprios iraquianos.

Evitando cravar uma data, o comissário confia que o processo estará concluído em 2004. Depois que já estiver de volta à família, em Genebra. A missão em Bagdá termina em setembro, quando a ONU vai enviar outro representante.

- Não é possível prolongar a ocupação do Iraque e a presença das forças da coalizão, além do ano que vem.

Diplomático ao extremo, Vieira de Mello contorna, evita as perguntas sobre a determinante participação dos governos de George Bush e de Tony Blair no processo que buscou aliados para convencer que Saddam tinha armas de distribuição de massa e era preciso invadir o Iraque. Mas defende a invasão. E sobre o crescimento do sentimento antiamericano no Iraque e em outros países? Ele admite que a falta de luz, água e serviços básicos gera uma certa revolta.
O noticiário mostra quase todos os dias dois ou três soldados das tropas aliadas morrendo. Vieira de Mello conta que não é bem assim. Que há, sim, problemas no chamado triângulo sunita. Mas ninguém deve temer a volta dos conflitos desenfreados, de uma guerra civil.

- É preciso ter cuidado para não exagerar na avaliação. A situação varia de uma região para outra. Agora, eu não tenho bola de cristal para prever se isso vai aumentar ou diminuir.

Morador nos últimos meses de Bagdá, o carioca sabe que precisa tomar cuidados redobrados.
- Ninguém passeia por aqui. Não se sabe onde a próxima bomba vai explodir ou a próxima granada será jogada nos aliados.

O fato de Saddam ainda não ter sido descoberto - vivo ou morto - não chega a ser determinante, diz. Ele relata que há poucos simpatizantes do ditador e torce pela sua captura vivo.

- Isso seria muito bom. Ele terá que prestar contas das atrocidades que praticou. (Por Sônia Araripe)
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Comissário prevê redução do terror
Embora reafirme que não gosta de arriscar-se em previsões, Vieira de Mello não espera a expansão do terrorismo no mundo em um rastilho de pólvora.

- Devemos lembrar do terrorismo na Itália, na Alemanha, no Japão. Tudo isso, felizmente, sumiu.

A resposta será só repressão e recrudescimento da liberdade de inocentes? O alto-comissário da ONU reforça que foram encontradas respostas não só repressivas e policiais. Os episódios recentes em diferentes pontos assusta, especialmente os ataques de 11 de setembro em Nova Iorque.
- Há uma expansão geográfica muito mais ampla, mais complexo. Existe um perigo de uma fratura entre o mundo muçulmano e o resto, o que seria catastrófico, apocalíptico, que não se justifica.

Vieira de Mello lembra que existe uma vontade coletiva, incluindo o Conselho de Segurança da ONU, de organizar uma estratégia de resposta eficaz à forma moderna do crime transnacional, organizado.

- Por isso, acredito que, com essa estratégia, e com outras respostas que não são repressão ao crime, esse fenômeno será superado.

Otimista? O brasileiro admite que sim. Mas com a experiência de quem lida direto com esse tipo de problema, o comissário acredita que não há outra opção.

Diplomaticamente, como tudo o que envolve sua trajetória, o negociador em tempos de guerra e paz pede desculpas para encerrar a conversa. A TV árabe Al Jazira aguardava para uma entrevista com o brasileiro. Dialogando em árabe, inglês e português, como quem apenas troca o rádio de estação, o ''superembaixador'' se despede.(Por Sônia Araripe)
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20/08/03 (publicada originalmente no Jornal do Brasil. Já depois do atentado ocorrido em Bagdá)
"Sou a ponte entre dois mundos"

Sônia Araripe
Foram quase três meses de tentativas e poucos resultados. Não era uma missão fácil conseguir localizar e marcar uma entrevista com o alto comissário para Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Parecia um jogo de gato e rato. Quando finalmente o encontro foi marcado percebi que não era, de forma alguma, porque Sérgio Vieira de Mello era inacessível. Nem um personagem de sua própria História. Com H maiúsculo, como convém aos homens que fazem a História do mundo.

- Você me desculpe. É que o tempo é curto. E temos um trabalho intenso. Precisamos ser breves - desculpou-se, logo de início.

Refeita do mal-estar da gafe inicial de tê-lo chamado de embaixador, percebi que tinha, do outro lado do telefone, a meio mundo de distância, um dos mais intrigantes personagens que já entrevistei em 20 anos de carreira.
Mesmo preocupado com os compromissos que teria em seguida - Vieira de Mello recebeu a TV Al Jazira também naquela quinta-feira, dia 14 - o diplomata não deixou uma só pergunta sem resposta. Era como se o negociador quisesse passar um último recado para o mundo. Perguntado, por exemplo, se não tinha medo de estar sempre em áreas conturbadas como Angola, Bósnia, Iugoslávia, Kosovo, Timor Leste e, este ano, em Bagdá (capital que deixaria em setembro, rumo a Genebra, onde mora a esposa, à espera de uma nova missão), o alto comissário disse com voz firme, como se fosse algo corriqueiro:

- Faço meu trabalho tranqüilamente. Não sou um aventureiro, um caubói. Tomo precauções. Tenho cuidado. Apesar das missões que já realizei, cá estou. Passei perto de situações críticas. Devo ter nascido sob uma estrela favorável.

E diante da curiosidade jornalística, da insistência sobre se ele usava colete à prova de bala ou se tinha seguranças pessoais, o diplomata voltou a mostrar desprendimento.

- Bato três vezes na madeira. E tenho dois coletes à prova de balas. Sou um funcionário das Nações Unidas e Deus é brasileiro.

Charmoso, pai de dois filhos que estudam em Paris, ele entremeava as frases com discretos risos, com irresistível simpatia e bom humor. De alguém que soube aproveitar a vida. Ainda que perigosamente. Não era um burocrata. Contou que fazia cooper na Bagdá do pós-guerra, num calor de 54 graus. Durante a entrevista, Vieira de Mello irradiou energia, a mesma com que defendia o fim da ocupação do Iraque por tropas aliadas até 2004. Ele relatou como tem sido humilhante para o povo iraquiano ver tanques nas ruas, ficar sem luz, água ou coleta de lixo.
Insistiu que não gostava de fazer previsões - ''não tenho bola de cristal'' - mas deixou firmemente registrada a vontade de que o Iraque se reerga até o próximo ano pelas próprias pernas, com sua Constituição, seu ministério e sua guarda. Só assim, disse, Bagdá deixaria de ser um lugar de altíssimo risco. Risco como o de um carro-bomba embaixo de sua janela, na manhã de ontem, no prédio onde 300 pessoas trabalhavam e participavam de uma entrevista coletiva. Vieira de Mello sabia dos perigos que cada esquina escondia.

- Ninguém passeia em Bagdá. Não se sabe quando e nem onde a próxima bomba vai explodir ou a próxima granada será atirada.

No domingo, quando o JB publicou a reportagem, a família dele, no Rio, acompanhou com atenção suas palavras. A mãe, Dona Gilda, se emocionou. Com o orgulho de quem criou o filho literalmente para o mundo. Para buscar a paz no mundo. Num Brasil que cede embaixadas como prêmio de consolação política, o superembaixador morreu depois da última missão. Mostrou que é possível lutar pelo que se acredita. E que nada foi em vão, já que outros levarão adiante sua incansável bandeira pelo diálogo. Como ele mesmo se definiu, era ''uma ponte entre dois mundos''.
Vieira de Mello relatou que sabia do perigo que corria e acreditava no papel de elo entre diferentes partes dos conflitos
Sônia Araripe
O relógio do computador registra, na resposta da mensagem eletrônica, o horário em que começava o trabalho no escritório da Organização das Nações Unidas (ONU) em Bagdá. Eram 8h30 de ontem quando Sérgio Vieira de Mello, o brasileiro que chefiava a missão da ONU na capital iraquiana, leu o e-mail que lhe enviei. Eu agradecia ao alto comissário para Direitos Humanos da ONU a disposição por ter respondido a uma saraivada de perguntas sobre sua brilhante carreira em terrenos conturbados e a missão pela paz no mundo. Para preparar uma reportagem de fôlego, publicada domingo no Jornal do Brasil, fui interlocutora privilegiada de um obstinado mensageiro da paz. Na manhã de quinta-feira, dia 14, durante uma hora, ouvi a voz firme, mas descontraída, de quem se orgulhava de ser brasileiro. Filósofo formado pela Sorbonne, filho de embaixador cassado, quis o destino que sua carreira seguisse na diplomacia. Foi a última grande entrevista do carioca de 55 anos que fugia a todo custo de ser chamado de embaixador. ''Sou o Vieira de Mello'', deixou claro logo de início. Foi um só contato. Mas, de tão intenso e sincero, ficou a certeza de que Vieira de Mello não veio ao mundo a passeio. ''Gosto do que faço. Tenho uma missão no mundo'', relatou.
Foram quase três meses de tentativas e poucos resultados. Não era uma missão fácil conseguir localizar e marcar uma entrevista com o alto comissário para Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Parecia um jogo de gato e rato. Quando finalmente o encontro foi marcado percebi que não era, de forma alguma, porque Sérgio Vieira de Mello era inacessível. Nem um personagem de sua própria História. Com H maiúsculo, como convém aos homens que fazem a História do mundo.

- Você me desculpe. É que o tempo é curto. E temos um trabalho intenso. Precisamos ser breves - desculpou-se, logo de início.

Refeita do mal-estar da gafe inicial de tê-lo chamado de embaixador, percebi que tinha, do outro lado do telefone, do outro lado do mundo, um dos mais intrigantes personagens que já entrevistei em 20 anos de carreira.
Mesmo preocupado com os compromissos que teria em seguida - Vieira de Mello recebeu a TV Al Jazeera também naquela quinta-feira, dia 14 - o diplomata não deixou uma só pergunta sem resposta. Era como se o negociador quisesse passar um último recado para o mundo. Perguntado, por exemplo, se não tinha medo de estar sempre em áreas conturbadas como Angola, Bósnia, Iugoslávia, Kosovo, Timor Leste e, este ano, em Bagdá (capital que deixaria em setembro, rumo a Genebra, onde mora a esposa, à espera de uma nova missão), o alto comissário disse com voz firme, como se fosse algo corriqueiro:

- Faço meu trabalho tranqüilamente. Não sou um aventureiro, um caubói. Tomo precauções. Tenho cuidado. Apesar das missões que já realizei, cá estou. Passei perto de situações críticas. Devo ter nascido sob uma estrela favorável.

E diante da curiosidade jornalística, da insistência sobre se ele usava colete à prova de bala ou se tinha seguranças pessoais, o diplomata voltou a mostrar desprendimento.

- Bato três vezes na madeira. E tenho dois coletes à prova de balas. Sou um funcionário das Nações Unidas e Deus é brasileiro.

Charmoso, pai de dois filhos que estudam em Paris, ele entremeava as frases com discretos risos, com irresistível simpatia e bom humor. De alguém que soube aproveitar a vida. Ainda que perigosamente. Não era um burocrata. Contou que fazia cooper na Bagdá do pós-guerra, num calor de 54 graus. Durante a entrevista, Vieira de Mello irradiou energia, a mesma com que defendia o fim da ocupação do Iraque por tropas aliadas até 2004. Ele relatou como tem sido humilhante para o povo iraquiano ver tanques nas ruas, ficar sem luz, água ou coleta de lixo.
Insistiu que não gostava de fazer previsões - ''não tenho bola de cristal'' - mas deixou firmemente registrada a vontade de que o Iraque se reerga até o próximo ano pelas próprias pernas, com sua Constituição, seu ministério e sua guarda. Só assim, disse, Bagdá deixaria de ser um lugar de altíssimo risco. Risco como o de um carro-bomba embaixo de sua janela, na manhã de ontem, no prédio onde 300 pessoas trabalhavam. Vieira de Mello sabia dos perigos que cada esquina escondia.

- Ninguém passeia em Bagdá. Não se sabe quando e nem onde a próxima bomba vai explodir ou a próxima granada será atirada.

Domingo, quando o JB publicou a reportagem, a família dele, no Rio, acompanhou com atenção suas palavras. A mãe, Dona Gilda, se emocionou. Com o orgulho de quem criou o filho literalmente para o mundo. Para buscar a paz no mundo. Num Brasil que cede embaixadas como prêmio de consolação política, o superembaixador morreu depois da última missão. Mostrou que é possível lutar pelo que se acredita. E que nada foi em vão, já que outros levarão adiante sua bandeira pelo diálogo. Como ele mesmo se definiu, era ''uma ponte entre dois mundos''.






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