Marta Castro é Colunista de Plurale(*)
Geração de trabalho e renda, campanhas de conscientização, reciclagem de lixo e apoio a instituições beneficentes. A maior festa popular do planeta ganha ares de responsabilidade sócio-ambiental. Ou não?
O carnaval gera importante impacto na economia em cidades como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital da alegria, por exemplo, a farra momesca emprega cerca de 200 mil pessoas; 100 mil postos de trabalho são gerados na cidade maravilhosa e 25 mil na terra da garoa. São números relevantes, especialmente em tempos de crise. Mas que tipo de trabalho é este que a maior festa popular do planeta cria?
Dados oficiais no Rio de janeiro informam que 60% dos empregos gerados em toda a cadeia produtiva da diversão são permanentes. Em Salvador, a maioria dos postos é ocupado por trabalhadores temporários, um universo que vai de jovens universitários, que usam suas férias para atuar em funções geralmente comissionadas e que lhes conferem um certo status, a cordeiros de trios elétricos, sem estudo, mal remunerados, mas que acabam se divertindo em blocos cujos abadás jamais poderiam comprar.
A situação dos cordeiros não é muito diferente da dos ambulantes. O ponto de venda de bebidas e petiscos muitas vezes vira camarote. Além de garantir em cinco dias o ganha pão de um mês, os vendedores assistem animados quando seus ídolos passam em cima dos trios elétricos. Como não podem deixar o ponto e nem o material de trabalho à mercê de outros necessitados, adormecem ali mesmo, acampados em papelões.
Este mesmo carnaval “democrático”, onde todos têm oportunidade, mas cada um sabe o lugar que ocupa, é também um carnaval “sócio-ambiental. Em fevereiro, governos e prefeituras reforçam as campanhas de conscientização, algumas necessariamente recorrentes, como as que fazem alusão à direção defensiva (se beber não dirija, e vice-versa), ao combate à exploração de mão de obra infantil (esqueci de dizer que os ambulantes trabalham e acampam com toda a família, inclusive crianças) e ao uso de preservativos. Só que a população está longe dos padrões idéias de educação e, portanto, nem sempre as campanhas preventivas surtem efeito. Daí, ao invés de atacar o problema na fonte, os governantes optam por soluções paliativas, como o lançamento de outras campanhas, desta vez natureza corretiva, como as orientam sobre a contracepção de emergência e sobre a detecção do vírus HIV.
No que tange ao meio ambiente, em Salvador, cerca de 1.600 toneladas de lixo são retiradas dos circuitos oficiais na semana da festa, o que equivale a mais da metade do lixo produzido em toda a cidade, durante um mês inteiro. Deste montante, somente 150 toneladas seguem para reciclagem, por intermédio de mais de mil catadores, entre cooperativados e independentes. Já no Rio e em São Paulo, um dia de desfile nos respectivos sambódromos gera cerca de 4 toneladas de lixo. As companhias de limpeza urbana de ambos os municípios fazem o levantamento exato da sujeira produzida por cada escola de samba. Uma informação como essa, no entanto, só será valorizada quando se tornar critério de avaliação das escolas, assim como a alegoria ou o samba enredo.
Também seria um estímulo valorizar as associações carnavalescas pelas ações sociais que desenvolvem. No Rio, as escolas de samba têm compromisso forte com as suas comunidades e geralmente conseguem capitanear recursos na própria comunidade ou com terceiros para garantir à população educação, cultura e lazer, dentre outros benefícios. Com os blocos afros e de percussão, em Salvador, não é diferente. A importância do Ilê Ayiê para a Liberdade, do Oludum para o Pelourinho, do Ara Ketu para o subúrbio ferroviários e da Timbalada para o Candeal Pequeno é fundamental; por meio de projetos educacionais e profissionalizantes, crianças e jovens têm a oportunidade de trilhar um caminho saudável e próspero.
A turma do axé também encontrou sua forma de contribuir, um tanto assistencialista, mas válida. Implantada desde o ano passado, a cortesia solidária vem ajudando uma série de Organizações Não Governamentais. O que antes era de graça (abadás, ingressos de camarote, etc.), agora custa alimentos não perecíveis ou uma doação em dinheiro para estas ONGs. Nada mais justo, uma vez que geralmente quem tem acesso às cortesias é quem menos precisa delas.
Uma das iniciativas mais interessantes do carnaval social, sem aspas, vem sendo desenvolvida pelo Sebrae de São Paulo, desde 2003, com quatro escolas de samba do Estado: Mocidade Alegre, Rosas de Ouro, Unidos do Peruche e Unidos de Vila Maria. Respeitando os desejos e a vocação das comunidades onde estão inseridas, as escolas recebem apoio para profissionalizar suas atividades, criar novos negócios e expandir seus trabalhos para além do carnaval. Um típico exemplo de projeto consistente e sustentável.
Marta Castro é administradora, especialista em marketing e recursos humanos. Com mais de 11 anos de experiência na área social, é Sócia Consultora do Instituto Planos e professora do MBA de Responsabilidade Social da Unifacs.












