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Casos e Causos

Triangulação


28/08/09

Triangulação

Roberto Patrus é Colunista de Plurale (*)


- Oi, Pai…
- Oi, Filho...
- Pai?
- Que é, meu filho?
- Posso dormir sem escovar dente?
- Claro que não, meu filho.
- Só hoje, Pai...
- Não. Vamos, levanta daí e escova logo, antes que você durma.
- Pai, mas a mamãe deixou...
- Já falei para você não fazer isso, meu filho.
- Isso o quê, pai?
- Falar de uma terceira pessoa, sem ela estar presente.
- Mas não tem jeito, Pai. Eu pensei nisso, mas eu falo da minha professora, dos meus colegas e você mesmo pergunta sobre eles...
- Eu sempre te digo que não devemos falar de uma terceira pessoa para ela mudar o rumo da nossa conversa, entendeu? Por exemplo, eu disse que não pode dormir sem escovar dentes e você pôs a sua mãe no meio, dizendo que ela deixava. Como ela não está aqui, você usa o nome dela para influenciar a minha decisão. Isso é que eu falei que não pode.
- Igual quando o Mateus falou que o Cláudio não gostava de mim, né, Pai? Como o Cláudio não estava lá para dizer se era verdade ou não, você me disse para não levar a sério, né?
- Isso mesmo, meu filho. Foi isso que eu chamei de triangulação! Você quer pedir algo para uma pessoa, mas usa a autoridade de uma terceira para conseguir o que quer da segunda pessoa. Ao invés da sua comunicação ser direta, e formar uma reta, ela vai para a terceira pessoa e depois para a segunda, formando um triângulo, com a resposta dela.
- Pai, não precisa pegar a caneta... você sempre esquece que eu não sou seu aluno.
- Mas isso é importante, Filho. A triangulação gera muitos mal-entendidos. Você pode ter certeza que eu não vou perguntar para a sua mãe se ela deixa mesmo você dormir sem escovar dentes. Será motivo para mais uma briga, e eu tenho certeza que ela vai negar, pois não pode uma mãe falar um absurdo desses para uma criança...
- Mas ela deixou, Pai.
- Já falei que isso é triangulação. Como ela não está aqui para conversar conosco, é melhor você se levantar e escovar seus dentes agora.
- Tá bom, Pai. Mas me espera aí no quarto, viu?
- Tá bom, Filho. Escova direitinho, viu? E não esquece de escovar também a língua!
- Pronto, Pai.
- Agora dorme, meu filho. Amanhã, nós vamos passear muito!
- A Mamãe não vai, né, Pai.
- Não, Filho. Já falei que estamos separados. Agora é hora de dormir...
- Bença, pai.
- Deus te abençoe, meu filho.
- Pai,
- Quê que foi, meu filho?
- Por quê que a gente pede “bença”?
- É uma forma de falar... Na verdade deveria ser “bênção”, mas como é difícil de falar, foi ficando bença.
- Não, Pai, estou falando por que é que o filho tem de pedir a benção para o Pai.
- Ah! É uma forma de respeito, de demonstrar que você respeita seu pai.
- Mas por que você fala “Deus te abençoe”? Você poderia dizer “Tá abençoado, Filho”. Pode ou não pode?
- Não sei... acho que pode...
- Mas você preferiu colocar uma terceira pessoa na conversa e isso é aquela coisa que você falou de triangulão.
- Triangulação, meu filho.
- É isso! Eu falo algo com você e você fala de um terceiro para me dar o que eu pedi para você.
- É...
- E não tem jeito de Deus estar aqui para conferir se Ele me abençoa mesmo, tem? Se juntasse as três pessoas, a gente podia esclarecer tudo.
- Mas é claro que Deus te abençoa, meu filho!
- Pai, a mamãe deixou eu ficar sem escovar dente um dia, eu juro!
- Amanhã a gente conversa sobre isso...
- Boa noite, Pai.
- Boa noite, Filho.
- Pai?
- Que é, meu filho?
- A partir de hoje eu não te peço mais a benção, viu? Vou pedir diretamente para Deus. Chega de triangulação.
- Tudo bem, meu filho! Boa noite.
- Boa noite!

(*) Roberto Patrus-Pena é Colunista de Plurale. Filósofo, psicólogo, professor, psicoterapeuta, mestre em Administração, Doutor em Filosofia. Tem 42 anos, é professor da PUC Minas há 20 anos e espera, daqui a dois anos, ter dedicado a metade da sua vida à essa instituição. Email: robertopatrus@pucminas.br






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Suzy Pinto da Silva |
Muito feliz a sua colocação. Opinião deve ser citada sempre na 1ª pessoa, mais uma brilhante lição. Obrigada Dr.

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